quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Projeto em quadrinhos denuncia o machismo do dia a dia na internet

O nome é divertido e a aparência é fofa, mas não se engane: Guta Garatuja não está para brincadeira. Ou melhor, está o suficiente para falar de machismo com alguma leveza e bom humor. Sem frescura nos traços e nos diálogos, as tirinhas da personagem ilustram de forma didática situações em que adesigualdade de gênero se manifesta no dia a dia.
Dos assédios no Carnaval à discriminação no trabalho, passando pela maternidade e pela divisão de tarefas domésticas, são muitos os temas que entram no radar da bonequinha – e que, em pouco menos de um ano, lhe renderam milhares de seguidores e até inimigos na internet.
Guta nasceu em outubro de 2015 pelas mãos da administradora Kaká Aguiar, 30 anos. Na época, a paulistana saiu frustrada de uma discussão sobre assédio com um amigo, cuja posição era machista e pouco aberta ao debate. Foi a partir daí que, em uma espécie de desabafo criativo, começou a desenhar e inventou sua personagem:
– Quando vi, eu já tinha sete tirinhas feitas e toda a minha raiva tinha passado – conta.

A primeira tirinha da Guta Garatuja. (Imagem: Reprodução)
Logo ao compartilhar uma das artes no Facebook, Kaká foi procurada por amigas que se sentiram compreendidas pela história. Viu então o potencial do projeto para unir mulheres e denunciar problemas comuns a todas. A narrativa em quadrinhos ajudava a descontrair temas pesados, e os desenhos made in Paint – além de batizar a personagem – davam mais graça às tirinhas. Dribladas as limitações técnicas, Kaká continuou produzindo e, por incentivo dos fãs, resolveu criar a página de Guta no Facebook:
– Lembro de fazer uma tirinha comemorando 200 curtidas e, um mês depois, comemorar 15 mil curtidas na página – relata.
Hoje mais de 40 mil pessoas acompanham as histórias de Guta na rede social, e a boneca coleciona até tentativas de boicote. Criar um site oficial para a personagem (além de contas no Instagram e no Tumblr) foi o jeito de contornar os bloqueios da página, derrubada por usuários contrários ao conteúdo das tirinhas. Kaká explica que toda semana recebe críticas pelo Facebook, mas que elas se direcionam mais ao feminismo do que propriamente à sua ideia.
Trabalho de formiguinha
Desde o início, porém, a ativista tinha consciência de que poderia ser atacada pelo projeto: a decisão de usar o apelido ao invés do nome próprio é uma maneira de se preservar dos haters na rede. Para não desanimar, Kaká mantém em mente o propósito da iniciativa:
– Penso que se a pessoa se deu ao trabalho de entrar na página para me criticar, é porque leu minha tirinha e, nem que seja por um segundo, parou para pensar no assunto. Só por isso, eu já me sinto vitoriosa.
Imagem: Reprodução
A criadora de Guta acredita que ainda é difícil comunicar às pessoas as sutilezas do machismo no cotidiano, e que mesmo o objetivo do feminismo – promover a igualdade de direitos e oportunidades entre os gêneros – é distorcido pelo senso comum. Apesar de ter sempre tido um “quê” feminista, ela mesma só entendeu recentemente a importância de se aliar a outras mulheres e desafiar os próprios preconceitos.
– Feminismo é estar sempre se questionando – afirma Kaká – Uma feminista deve se sentir livre para fazer as suas escolhas, inclusive se a escolha for simplesmente mudar de opinião.

Foto: Reprodução
Por enquanto, o grande objetivo da ativista é inspirar outras pessoas a refletir e combater os problemas que Guta aborda nas tirinhas. A personagem já ganhou uma turma e passou a contemplar outras desigualdades, como o racismo e a homofobia. Kaká também está aprendendo a mexer em programas de design para aprimorar os quadrinhos, e faz questão de ressaltar que a boneca não é seu alter ego:
– Não acho que saber quem está por trás da Guta acrescentaria algo à discussão – defende. – A Guta somos todas nós e por isso, gosto de deixá-la falar e nos representar.
Se é assim, Guta pode continuar pintando o machismo como uma piada de mau gosto. Motivo para tanto é que não vai faltar.
Via Donna
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