Uma conversa entre as duas artes.
Muitos pesquisadores de mangá marcam a arte emakimono (rolo de pintura) e as xilogravuras japonesas como sendo início da arte do mangá.
Comentaremos especificamente sobre a xilogravura japonesa e sua relação com o mangá. Porém, antes de tudo, é necessário explicar brevemente o que é xilogravura japonesa.
Esta arte migrou da China para o Japão, no século VIII, com o propósito de distribuir os escritos Budistas nos templos. No século XVI e XVII a xilogravura se tornou um meio para divulgar o ukiyo-e (“pintura do mundo flutuante”). Conhecida como mokuhanga (木版画), esta técnica inicialmente imprimia somente preto e branco e as cores eram feitas manualmente. Em meados do século XVIII que a impressão passou a ser policromia. Cabe ainda observar que a maneira que a xilogravura era e é retratada no ocidente é diferente da japonesa, enquanto no ocidente existe o contorno e as hachuras para representar luz e sembro e volume, no Japão, são apenas as linhas grossas e finas dos contornos que criam a figura.
Um dos mais renomados artistas da xilogravura japonesa é Katsushika Hokusai (1760 – 1849). Hokusai, como é conhecido no Japão e no mundo, teve em vida pelo menos 30 nomes diferentes, tradição comum na cultura japonesa. Suas obras influenciaram os artistas franceses do século XIX, como os impressionistas e a art nouveau, além de artistas do mangá. A principal importância de Hokusai para o mangá foi o termo, que significa “desenho cômico”.

Autoretrato de Katsushika Hokusai
Uma de suas maiores obras consiste em uma coleção de 15 volumes, um livro repleto de quase 4.000 esboços que foi publicado em 1814 e denominado de Hokusai Manga. Estes esboços são de animais, de pessoas do cotidiano, construções, de objetos e, inclusive, do sobrenatural. Estes volumes foram muito importantes tanto para o artista quanto para seus discípulos que usufruíam dos estudos de Hokusai para se aprimorarem, além é claro, de conquistar novos artistas discípulos.

Volume 1: cenas da vida cotidiana
Além do termo mangá, uma das aproximações que podemos fazer entre os quadrinhos japoneses e a xilogravura japonesa (e ukiyo-e), são as divisões temáticas que apresentam. Por exemplo, no primeiro temos: shôjo (menina adoslecente), shônen (menino adolescente), gekiga (pintura dramática), mecha (ficção científica, robôs e máquinas), yaoi (narrativas relacionadas a homossexualismo), hentai (pornográfico e erótico) etc; e no segundo temos: bijinga (“figura bonita”), meisho-e (“pinturas de vistas-famosas”), yakusha-e (“pintura de atores de kabuki”), shunga (“pintura erótica”) etc.
Outra relação é o enquadramento das cenas. Os artistas impressionistas já haviam se encantado com os cortes das figuras que os artistas japoneses fazem nas suas obras. Eles não representam a figura completa no espaço a ser produzido, e sim, como nosso olhar vê a realidade, característica também encontrada nos enquadramentos de cena dos mangá, principalmente os shôjo mangá. A composição é dinâmica, pois há a presença da diagonalidade, dos espaços cheios e vazios, ausência de simetria e equilíbrio, a perspectiva normalmente se dá pelo ângulo do “olho de pássaro”.
Encontramos a imagem bidimensional na maioria das xilogravuras e as imagens raramente possuem claro e escuro, apenas uma representação de luz e sombra em alguns momentos, assim como nos mangás em que as retículas produzem o mesmo efeito.
As linhas também se assemelham, pois o desenho é feito com pincel no papel antes de ser transpassado para a madeira (matriz), e o corte na matriz permanece a linha original do artista, permitindo que as linhas sejam grossas e finas. No mangá o efeito é o mesmo, mas os artistas procuram usar o pincel ou o bico de pena. Em ambas as artes, essas linhas não são o limite para as cores ou retículas, elas não necessariamente respeitam essa delimitação.
Outra conversa que as duas artes podem ter é sua popularização. As xilogravuras, por poderem ter várias impressões, eram comercializadas de forma barata e em grande escala, assim como é a indústria do mangá. O objetivo não é restringir o público, e sim, ampliá-lo.
Estas são algumas aproximações possíveis que encontramos nas xilogravuras japonesas e nos mangás, de duas artes que são apreciadas pelos japoneses e também populares e reconhecidas no ocidente.
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