sexta-feira, 4 de março de 2016

De onde vem nosso fascínio por super-heróis?


Foto: Warner Bros
Image captionA Mulher Maravilha, assim como Hipólita e Pentesileia, é uma amazona, uma semi-divindadde

Nos últimos anos, é possível que até o fã mais fiel das histórias em quadrinhos tenha se perguntado se não há um excesso de filmes com super-heróis no cinema da esquina. Para cada nova aventura do Homem de Ferroou de Os Vingadores, surgem versões de Quarteto Fantástico ou de O Incrível Hulk.
Os grandes estúdios continuam produzindo esses filmes porque eles sabem que o público vai comparecer em massa. O que nos faz querer saber: por que somos tão atraídos por histórias de super-heróis? E desde quando?
A resposta para a segunda pergunta é mais curta do que para a primeira. Os super-heróis existem desde que existem histórias - ou seja, antes mesmo do surgimento da escrita e em todas as culturas que conhecemos.

Para os irlandeses, foi o gigante Finn McCool quem construiu a Calçada do Gigante, um conjunto de milhares de colunas de basalto e origem vulcânica localizado no condado de Antrim, na Irlanda do Norte. Na antiga Mesopotâmia, Gilgamesh usou sua força sobre-humana para derrotar Humbaba. Isso sem falar nos antigos gregos, que podiam se vangloriar de uma fartura de heróis capaz de fazer inveja à Marvel e à DC.

Receita de herói

Os requisitos para ser um super-herói são bem flexíveis. O Super-Homem é um alienígena; o Homem-Aranha foi picado por uma aranha radioativa; e Bruce Banner foi contaminado por raios-gama. Em outras palavras, são seres humanos comuns com um poder que lhes foi imposto.

Image captionAlguns personagens da Marvel são baseados na mitologia nórdica, como Thor e seu irmão, Loki (Foto: Disney/Marvel)

As antigas civilizações usavam um recurso narrativo semelhante, mas com uma semidivindade como explicação, e não a ciência. Perseu, por exemplo, era herói por ser filho de Zeus. A Mulher Maravilha, assim como Hipólita e Pentesileia, é uma amazona e também uma semidivindadde.
Os superpoderes de Bruce Wayne e Tony Stark são seus cartões de crédito ilimitados, o que também explica por que Agamenon – o menos heroico dos heróis – se preocupou tanto em conseguir uma recompensa maior do que qualquer outro herói grego durante a Guerra de Troia: dinheiro é poder.
Mas talvez meu subgrupo favorito de heróis seja aquele que inclui o Gavião Arqueiro e o Arqueiro Verde, cujos superpoderes consistem em “ser um craque no arco e flecha”.
Isso os aproxima do mais astuto dentre todos os heróis antigos, Ulisses. Depois de passar 20 anos longe de sua casa em Ítaca, ele prova sua identidade para aqueles que o consideravam morto ao montar um complicado arco e lançar uma flecha através de 12 lâminas de ferro.

Quadrinhos e clássicos

Todo super-herói tem um passado, e um número surpreendente deles devem essas origens aos mitos sobre deuses e heróis que existiram milênios atrás.
Até o Homem-Formiga não é um fenômeno completamente recente. Zeus se transformou em formiga como parte de seu plano para fazer sexo com todas as belas mulheres do mundo antigo, enquanto se disfarçava em diferentes criaturas.
Isso nos leva àquela primeira pergunta, bastante complicada: o que a narrativa do super-herói tem para fazer com que contemos histórias sobre homens e mulheres com superpoderes há tanto tempo?
Para os antigos gregos, heróis e deuses agiam como se fossem uma ponte entre aquilo que eles podiam entender e explicar e aquilo que lhes era incompreensível e inexplicável.
E os heróis da Ilíada, da Odisseia e da Eneida – os poemas épicos da Guerra de Troia e seu final – possuem uma conexão íntima com os deuses que dão forma a suas histórias heroicas.
Aquiles é filho de Tétis (uma ninfa do mar por quem Zeus tem uma “queda”). Eneias é filho de Vênus e passa a ser o favorito de Atena. Ulisses é descrito por Homero como alguém cheio de artimanhas. Mas ainda assim, alguns de seus melhores atributos são oferecidos por um deus ou outro: sem a ajuda de Hermes, por exemplo, ele não teria os planos corretos para derrotar a bruxa Circe.
Essa conexão com um poder maior que pode influenciar o mundo é um aspecto crucial de vários heróis. E talvez seja essa característica em particular que dê ao super-herói um de seus atributos mais perturbadores: o individualismo excessivo, que os permite operar fora das leis comuns que regem a sociedade, e sempre acima da lei.
É uma alegoria comum nos filmes de super-heróis mais recentes: quem é Batman para decidir que tipo de justiça Gotham City merece? Ele é um vigilante mascarado que se coloca acima de seus cidadãos e age como um juiz, um membro de júri e às vezes até o carrasco que executa os vilões da cidade.

X-Men existenciais

Essa questão tão pouco é nova. No Livro 2 da Ilíada, um homem chamado Térsites faz uma rápida aparição. Ele não é descrito com referência a seu pai: quem quer que ele seja, não é importante o suficiente para ter seu passado vasculhado.
Tértites também é vulgar e de aparência estranha, e logo nos convencemos de que ele não tem ar de super-herói. Mas Térsites acusa o rei Agamenon de ser ambicioso e covarde, leva uma surra de Ulisses e chora de dor e humilhação.

Wikipedia
Image captionHistórias antigas mostravam não apenas os herois, mas também os vilões – como Polifemo, acima retratado pelo artista suíço Arnold Böcklin (Foto: Wikipedia)

Uma pergunta, então, surge para quem lê o poema: por que Agamenon deve ser tratado como um grande rei? O que o coloca acima dos outros, além de seu enorme amor-próprio, principalmente quando todos concordam que Aquiles é um guerreiro mais corajoso?
E o que acontece quando um herói sai totalmente do caminho que a maioria de nós consideraria recomendável? O mutante Magneto, de X-Men, por exemplo, começa lutando ao lado de Charles Xavier, mas suas diferentes escolhas os colocam em lados rivais.
Sua história replica aquela de Ájax, que batalha ao lado de outros heróis gregos durante a Guerra de Troia. Mas depois de ser enganado e perder o que ele acreditava ser uma merecida recompensa, volta-se contra seus antigos companheiros.

Elevando a condição humana

Certamente somos atraídos por heróis e super-heróis porque eles elevam a condição humana – e o fazem justamente porque atuam em um plano ligeiramente desumano.
Os heróis são como nós, mas potencializados: mais fortes, mais inteligentes, mais rápidos. Eles sofrem das mesmas fragilidades humanas que nós, mas por causa de seus superpoderes, esses conflitos internos se tornam aparentes em uma arena mais dramática do que a nossa.
Os super-heróis impõem ordem em um mundo caótico, que parece estar sempre tomado por forças nefastas (de desastres naturais a supervilões), que nós, simples mortais, não conseguimos identificar – muito menos combater.
Está claro que preferimos um mundo de super-heróis acima da lei do que um sem nenhum super-heroísmo. E sempre foi assim.
Via BBC
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