quinta-feira, 3 de março de 2016

FOLCLORE BRASILEIRO INSPIRA MANGÁS DE QUADRINISTA PERNAMBUCANO

odoberto
Desde criança, o pernambucano Odoberto Lino sempre alimentou o sonho de ser quadrinista. No entanto, como sétimo filho de uma casa humilde, precisava primeiro pensar em alimentar a própria família. “Tive que pausar meu sonho por muitos anos até me estabilizar financeiramente. Então foi a hora de correr atrás”. Hoje, aos 33 anos – três dos quais já quadrinista independente – os sonhos são outros. Pretende ultrapassar o espaço da internet e publicar Folclorianos, sua principal obra, em um encadernado de lombada quadrada até o fim de 2016.
Folclorianos é um mangá, escrito e desenhado pelo pernambucano e publicada em abril de 2015. A história mistura humor e ação, com um clima interiorano delicioso e a presença de diversos mitos brasileiros. A história começa quando o saci rouba as roupas de João, um menino da roça que fazia de tudo para conseguir arrastar Margarida para o seu banho de rio. O menino acaba sendo escorraçado pelo Coroné, pai da mocinha, e se perde no meio do mato. Cabe ao saci e seu amigo curupira encontrarem o “moleque orelhudo” para evitar que uma brincadeira acabe pior do que deveria.
Nessa entrevista exclusiva ao Colecionador de Sacis, Odoberto explora a relação entre brasilidade e folclore; defende que nossa cultura popular sirva como inspiração, não como camisa de força para os artista e conta sobre seus futuros projetos. Incluindo as histórias de Luis, o Filho do Padre – que herdou os poderes de uma mula-sem-cabeça, e pincela o que esperar de Bambulândia – a terra dos sacis.
“A origem do saci que mais me chamou a atenção é a que Deus tirou sua perna para fazer a saci-mulher. Bem bíblico, né? O saci em Folcorianos tem essa origem. Ele não é desse mundo, mas de um universo paralelo ao nosso que tem como porta dimensional os bambuzais”.
Confira.

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Colecionador: Primeiramente, fale um pouco sobre você. Onde nasceu, onde mora, quantos anos têm, quando começou a trabalhar com quadrinhos.
Odoberto Lino: Sou nascido e criado na cidade de Camaragibe, que fica situada na área metropolitana do Recife, Pernambuco. Tenho 33 anos (o tiozão da família) e meu encantamento pelos quadrinhos veio ainda na infância, quando eu lia os gibis da Turma da Mônica. Na inocência de um menino de oito ou nove anos, era algo mágico ver os personagens se movendo mesmo sem se mexerem de fato.
Por volta dos 14 anos, decidi que iria ser quadrinista. Só que era uma decisão íntima, que eu não compartilhava com ninguém. Afinal, sendo o caçula de sete irmãos em uma família pobre, apostar no seu próprio sonho era quase que pecado. Mas mesmo com as dificuldades, todo trocado que conseguia eu juntava pra ir até a banca comprar revistas-curso de desenhos e gibis.
Quando eu tinha 17 anos, um amigo me apresentou os gibis para maiores de idade (os hentais). Consegui entrar em contato com o editor de uma das revistas e, depois de alguns anos aperfeiçoando meu traço, consegui publicar algumas histórias na Hentai-X. Logo depois a revista se extinguiu, e já estava mais do que na hora de eu começar a ajudar nas despesas da casa.
Tive que pausar meu sonho por muitos anos até me estabilizar financeiramente. Então foi a hora de correr atrás.
Colecionador: Qual foi seu primeiro contato com folclore brasileiro? Você se sentiu atraído pela temática desde o começo?
Odoberto Lino: O contato inicial foi na escola primária, durante a Semana do Folclore, próximo ao 22 de agosto. As lendas que as professoras contavam, as brincadeiras, danças, os desenhos para colorir… Eu simplesmente adorava tudo isso, porque saíamos da rotina chata das matérias ortodoxias e íamos para um mundo de imaginação e fantasia.
Colecionador: Seu traço sofre bastante influência do mangá. A partir de que momento você achou que seria possível unir esse estilo de quadrinho japonês com a cultura brasileira?
Odoberto Lino: Mesmo sendo apaixonado pelos X-Men e pelo Homem-Aranha, o estilo Comics de desenhar nunca me atraiu. Já o mangá é cômico, dinâmico, com a possibilidade de você criar seu próprio estilo de desenhar. Como os mangás contam muitas histórias fantásticas e mágicas, logo vi que seria ideal criar aventuras a partir das nossas lendas e mitos trilhando por esse gênero.
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Colecionador: Os mitos brasileiros, como toda mitologia, possuem várias versões para as mesmas criaturas. Você faz uma pesquisa antes de definir como serão os seres das suas histórias? Quais as suas fontes?
Odoberto Lino: Pesquisar é o fator essencial para criar algo. Eu pesquisei e pesquiso muito em sites e blogs relacionados ao folclore, mitologia indígena brasileira, lendas urbanas e culturas regionais. O Saci, por exemplo, têm diversas origens e divergências a respeito de qual perna ele tem, se é um ser diabólico, se é um jovem que perdeu uma pena para não lutar mais capoeira. Têm sacis-albinos, sacis-fêmeas… Essas diversas possibilidades permitem criar uma versão que não fuja da essência do ser folclórico.
odobertoColecionador: No seu suplemento Ideias Folclóricas, você mostra que tudo é válido para o criador da história – de sacis robôs a cavaleiros folclóricos. Você tem alguma preocupação em se manter fiel aos mitos originais? Como você vê a importância de usar nosso folclore como gatilho para a criatividade?
Odoberto Lino: Tudo é válido para criar uma história desde que você pesquise bem o tema e seja fiel a essência do personagem. Por exemplo, qual a essência do Saci? Ele se locomove em redemoinho, tem uma perna só, manipula o vento e fuma cachimbo. O robô-saci levita através de ar quente que sai de um tubo central que seria sua “perna”; lança rajadas de ar através dos seus dedos, e do seu gorro sai fumaça. Ao vê-lo, você identifica imediatamente que aquilo é um saci. Um saci diferente, mas ainda um saci.
Os animes e mangás fazem sucesso no mundo todo. Mas o que poucos se atentam é que os japoneses utilizam muito de versões variadas das lendas folclóricas de seu país. Naruto e Kurama (Yuyu Hakusho) são baseados numa mesma lenda de uma raposa-demônio, e veja que são personagens totalmente diferentes.
Meu objetivo ao fazer Folclorianos foi de mostrar que seres do nosso folclore não são coisas de crianças, mas possibilidades infinitas de criação que podem inspirar quadrinhos, jogos, animações. Que podem ser usados em gêneros de terror, comédia, ação e o que der na telha.
Colecionador: E quais suas outras referências para construir o universo caipira de Folclorianos ou de O Filho do Padre? Há alguma memória de sua própria infância nessas histórias?
sasas2Odoberto Lino:Mesmo morando em uma área urbana, minha cidade é situada na Zona da Mata. Temos florestas enormes, rios, pessoas que criam galinhas no quintal… Então isso de se aventurar no meio do mato para pegar frutas, pescar, foi algo que eu vivi. E por ter muitas pessoas que vieram do agreste e do sertão para tentarem ganhar a vida na cidade, eu sempre ouvi muitas lendas e histórias que me dão medo até hoje. Por isso que criar o universo de Folclorianos foi fácil.
O Filho do Padre se passa em área mais urbana com a qual estou habituado. Nele já entram temas mais adolescentes como conflitos com os pais, vontade de conquistar uma menina, ter amigo que “só pensa naquilo”. Então, sim, a referência para criar o mundo de Folclorianos e O Filho do Padre é baseada na sociedade onde cresci.
Colecionador: Já vi editores e quadrinistas que criticam essa ideia de que “parece que quadrinho brasileiro precisa ter saci e curupira para ser nacional”. Dizem ainda que esses temas são abordados estrategicamente apenas para se beneficiar de leis de incentivo. Qual sua opinião sobre essa discussão?
Odoberto Lino: Qualquer brasileiro que faça uma HQ no Brasil, para ser vendida aqui, produz quadrinho nacional e ponto. São histórias de infantis, de terror, ação… Mas folclore não é um gênero, e sim um tema que pode ser explorado como qualquer outro. Se eu pegar as HQs Cruel (Allan Ruy), Xamã (Eberton Ferreira), Enemus (Marcos Gratão), Digude (Vinicius de Souza) e Trash Tronic (Fabio Rodrigues), vamos perceber toda essa pluralidade.
Não é questão de que todo quadrinho nacional precise tratar de folclore, isso é no mínimo idiotice. Mas, a meu ver, o folclore, como a mitologia indígena, são temas que deveriam ser incentivados, e não algo que se fale apenas uma ver por ano na escola.
Sei que existem pessoas que usam de recurso de Lei de incentivo para ganhar verba para o seu projeto. Não tem nada de errado nisso, é um direito que o artista pode tentar conseguir. Mas convenhamos que o governo prefere usar esse recurso para financiar turnês de cantores, e livros de artistas famosos do que dar para qualquer quadrinista.
Colecionador: O que você acha que faz a sua obra ser um quadrinho brasileiro, e não um mangá que apenas traz o template brasileiro?
Odoberto Lino: Primeiramente, sou um brasileiro, fazendo uma HQ no Brasil para ser lido por brasileiros. O estilo dinâmico e gráfico é do mangá, mas o enredo é puramente brasileiro. Afinal, quantos heróis você vê por aí usando camisa, bermuda e sandália havaiana?
Agora sério. Nas minhas obras, sendo elas com temas folclóricos ou para maiores de 18, eu coloco fatos e causos que acontecem na nossa sociedade e na realidade em que vivemos para que o meu público se identifique. Portanto, mesmo eu usando os efeitos gráficos de construção do mangá para criar minhas HQs, os enredos abordados nelas são o diferencial.
12183692_787011818077295_403739879021765928_oColecionador: Comente um pouco sobre o processo criativo para sua versão dos mitos folclóricos. Como chegou aos layouts para os poderes do saci e do curupira, por exemplo?
Odoberto Lino: Pego tudo que eu pesquisei sobre o personagem passo no liquidificador e tiro do coador só o que agrada. A origem do saci que mais me chamou a atenção é a que Deus tirou sua perna para fazer a saci-mulher. Bem bíblico, né? O saci em Folcorianos tem essa origem. Ele não é desse mundo, mas de um universo paralelo ao nosso que tem como porta dimensional os bambuzais.
Quanto ao Curupira, em lugar nenhum consegui encontrar sua origem. Para complicar, em algumas regiões o Caipora e o Curupira são quase o mesmo ser, mas com características diferenciadas. Eu quis dar uma origem de irmãos para eles, mas ficava me perguntando. Por que um tem cabelo de fogo e o outro é peludo? Por que um tem os pés virados e o outro é musculoso?
Foi aí que eu recorri à mitologia indígena, fui até os sete demônios lendários Guarani, onde conseguir bolar uma origem logica para o Curupira e seu irmão Caipora. Na história, sem dar muitos spoilers, eles são frutos de um estupro cometido pelo Kurupi.
Colecionador: Você chegou a pensar em alguma história para aqueles sacis de Ideias Folclóricas? Ou para aquele saci guerreiro, com um cachimbo gigante, em seu Facebook? Ou são apenas ideias visuais?
Odoberto Lino: As ilustrações para “Ideias Folclóricas” foram só ideias lançadas ao vento para que, de certa forma, pudessem incentivar os aspirantes a quadrinistas. Já o Saci Lendário faz parte do Universo Folclorianos. Em uma aventura futura vamos para Bambulândia (o mundo dos sacis), onde seres diabólicos estão destruindo tudo e só antiga profecia será capaz de salvar o mundo. É aí que o Saci Lendário aparece.
IMG_20160302_160537Colecionador: Em “O Filho do Padre”, você criou uma nova criatura com base num ser já bastante famoso do folclore brasileiro. De onde veio essa ideia?
Odoberto Lino: Luiz, o Filho do Padre, veio pra mim como uma ânsia de criar um herói que tivesse poderes sem que para isso precisasse ter vindo de outro planeta, nem passado por radiações ou precisar de tecnologias. Queria que ele fosse inspirado em nossa cultura.
De todas as lendas que eu li, a que poderia gerar um “herói” seria a Mula-sem-cabeça. Ela é uma mulher que, ao transar com um padre, é amaldiçoada. Logo, um filho desse amor proibido poderia nascer com agilidade, força e resistência dos equinos, com o poder sobrenatural de manipular o fogo. Um herói nascido de uma maldição de Deus.
Eu fiz essa primeira aventura do Luiz como apresentação do personagem, e coincidiu com um concurso de quadrinhos. Decidi concorrer, mas não tive uma colocação boa. Foi então que coloquei a HQ no Issuu para que o público lesse, e o retorno de pessoas me parabenizando, elogiando, entrando em contato… Foi muito FODA!
Colecionador: O que pode adiantar sobre os próximos lançamentos envolvendo histórias folclóricas?
Odoberto Lino: Esse ano é o ano de produzir freneticamente. Eu estou produzindo a terceira história de Folclorianos, e fiz uma parceria com o Hercules de Oliveira para quadrinizar a história seguinte. Meu intuito é ter seis histórias publicadas, para depois lançar um volume impresso com lombada quadrada. O Filho do Padre terá sua primeira saga dividida em sete capítulos a qual já estou produzindo. Espero poder fazer isso tudo até o fim desse ano.
Acompanhe o quadrinista na Social Comics
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