sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Em busca da primeira quadrinista brasileira

detalhe de Deux élégantes
Por Roberta A. - Minas Nerds
Um belo dia acordei com uma questão na cabeça: quem foi a primeira mulher a fazer quadrinhos no Brasil? Porque o primeiro homem é conhecido, tem prêmio com o nome dele e tudo por aqui. Os primeiros quadrinhos brasileiros foram publicados na segunda metade do século XIX e é bem possível que nessa época já existissem mulheres fazendo tirinhas e coisas do gênero.
O primeiro passo para aplacar qualquer curiosidade é fuçar na internet. E lá vamos nós. Usei mais de um buscador diferente para evitar vícios de algorítimo ou algo assim (existe expressão técnica para isso?) com expressões como “primeira quadrinista brasileira”, “primeira mulher a fazer quadrinhos Brasil”, “pioneira quadrinhos brasileira” e por aí vai. Invariavelmente aparecia a revista pioneira, a primeira personagem mulher e sempre os autores homens.
Nesse ponto decidi ler textos online sobre a história dos quadrinhos no Brasil em diversos sites. Na maioria deles não existe nenhuma referência a mulheres que fizessem histórias em quadrinhos nos primórdios, mas encontrei duas mulheres que trabalharam como roteiristas ou desenhistas até a década de 1940, uma chamada apenas de “a esposa Maria” de um editor de um suplemento de quadrinhos e a outra citada na expressão “o casal Helena Ferraz de Abreu e Maurício Ferraz”. No caso da segunda, aparentemente a família negou que ela fizesse roteiros de quadrinhos.

Falcon tinha roteiro de TeresaFalcon tinha roteiro de Teresa Saidenberg










Encontrei também a referência a Maria Aparecida Godoy, roteirista de histórias de terror nas décadas de 1960 e 1970, e a Teresa Saidenberg, que foi roteirista de Falcon na década de 1970 e é lembrada como esposa de Ivan Saidenberg (tem gente que fala que os roteiros eram do marido, que usava o nome dela). Com exceção de Aparecida Godoy, o registro dessas pioneiras deve ter se dado apenas pela relação com os caras dos quadrinhos da época, coisa que ainda é bem comum hoje em dia.
Acima HQ com roteiro de  Maria A. Godoy e abaixo a roteirista em dois momentos distintos, na época que escrevia contos de terror (Década 60 e 70) e mais recentemente, em 2010. (BP)
Como percebi que a internet não seria uma fonte muito boa, decidi ir atrás dos acervos impressos e entrei em contato com a Biblioteca Nacional. Fui muito bem atendida, mas como não moro no Rio de Janeiro, consegui muito pouca informação. Me passaram novamente o primeiro quadrinho publicado no Brasil, que faz parte do acervo, e disseram que “infelizmente não temos informações sobre as pioneiras do quadrinho nacional”, além de sugerir que eu pesquisasse em todo o catálogo disponível a existência de autoras, que eles veriam se é possível me disponibilizar o material. Um trabalho imenso que possivelmente não vá resultar em muita coisa, pois esses catálogos nem sempre trazem o nome de todos os autores.
Revista Risca, das Lady's Comics
Revista Risca, das Lady’s Comics
Nesse meio tempo, fiquei sabendo que as Lady’s Comics estão fazendo esse levantamento faz um tempo e publicaram um artigo sobre as pioneiras dos quadrinhos brasileiros na revista Risca, lançada recentemente. Entrei em contato com elas para saber quais dificuldades encontraram e me disseram para esquecer essa ideia de ir atrás da primeira mulher quadrinista: “Então, foram muitas (dificuldades), por conta dessa falha histórica. O que fizemos foi ir em sebos, bibliotecas, fuçar na internet. O que nos levou a algumas autoras e, conversando com elas, pudemos chegar em alguns nomes. Esses nomes, identificamos como precursoras. Falar em primeira achamos arriscado, justamente por conta dessa falha, algumas mulheres usavam codinomes. Na Risca fizemos uma linha do tempo, que está em construção, e nela temos todos os nomes que encontramos”.
Confiando nesse trabalho que as meninas estão levando a cabo já faz um tempo, parei minha pesquisa por aqui. A curiosidade sobre a primeira quadrinista (já que o primeirO é super referenciado) continua, mas o que essa busca me mostrou mesmo foi a importância de registrarmos em muitos lugares as ações das mulheres em diversos campos de ação, porque o tempo faz com que elas desapareçam (que nós desapareçamos). Mas isso vai mudar. Está mudando.
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