quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ode à união das minorias étnicas

Por Milena Azevedo - GHQ
Durante o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, em 2008, foram publicados trabalhos interessantes, como Banzai – A História da Imigração Japonesa em Mangá e uma edição especial da Front, além de uma HQ chamada O filho da costureira e o catador de batatas ou O catador de batatas e o filho da costureira (112 páginas, preto-e-branco, R$ 24,90).
Ricardo Giassetti, roteirista, tradutor e criador da coleção Mojo Books, compôs uma pequena ode à união das minorias étnicas ao perceber que, mesmo com passados distintos, os imigrantes japoneses que aportaram no Brasil tiveram destino similar ao dos negros libertos, cuja condição sócio-político-econômica fora modificada no papel, mas na prática continuavam sendo tratados com inferioridade.
O trabalho escravo negro estava deixando de ser lucrativo quando, em meados do Século 19, as lavouras de café substituíram a cana-de-açúcar, o algodão e o cacau como principal produto de exportação brasileiro.
Para otimizar o plantio e a colheita do café, foi empregado o trabalho assalariado, usando como principal mão-de-obra os imigrantes europeus e asiáticos.
Eles chegavam ao Brasil esperando prosperar, mas acabavam presos a um regime semi-escravagista, no qual já começavam devendo a viagem de ida e trabalhavam apenas para pagar suas contas superfaturadas nos armazéns das fazendas.
Os primeiros japoneses chegaram ao Brasil no dia 18 de junho de 1908. Mais de 160 famílias para trabalhar nos cafezais do Oeste paulista.
Na história de Giassetti, Ikemoto era um desses imigrantes. Herói de guerra, fugindo de um passado infeliz. Ao ver os cafezais pela primeira vez, verbaliza em tom poético: “eram milhões de pés de café. Um mar verde que lembrava a farda dos soldados. Os grãos vermelhos de café eram o sangue respingado. A linha de ferro cortando o cafezal, uma longa cicatriz com pontos aparentes.”
No Brasil, Ikemoto encontra Isidoro, negrinho sabido e letrado, mas duplamente discriminado por sua cor e por ser aleijado; e ainda vivia se esquivando da valentia de Geraldo, seu irmão de criação, que não gostava dele por ser mestiço.
Isidoro era filho de pai branco e mãe negra, rejeitado por ambos e criado por Mãe Nâna, uma ex-escrava velha que tinha prazer em cuidar dos enjeitados.
Tanto Ikemoto quanto Isidoro sabiam que continuar com a vida que levavam não os traria perspectivas de um futuro feliz e promissor. Fazia-se necessário desfazer antigos laços, somar suas forças e começar uma nova história, a qual faria do Brasil um país com tolerância ampla a todos os povos e culturas do mundo.
A forma como as duas tramas foram narradas torna esta HQ singular. A começar pelo título, cujos protagonistas mudam conforme a escolha do leitor em fazer a leitura ocidental (da esquerda para a direita) ou a oriental (da direita para a esquerda), com textos em português e legendas em japonês e vice-versa.
O desenhista Bruno D’Angelo reforçou a diferença das narrativas ao empregar o estilo mangá para a história de Ikemoto, e um estilo sujo e deveras hachurado, misturando quadros finalizados com outros apenas esboçados a lápis, para apresentar a realidade dura e “feia” de Isidoro.
Nas orelhas da HQ foram colocadas informações sobre a obra, explicando que o trabalho de pesquisa histórica demorou quase dois anos, e que foram utilizados modelos vivos para ajudar D’Angelo a compor os personagens japoneses.
Também há apresentações dos personagens principais, Isidoro e Ikemoto, e um adendo para o sentido de leitura, que respeitou ambas as culturas.
Pontos para a JBC que abriu espaço para a produção de um trabalho nacional de altíssima qualidade.
(Resenha publicada no Universo HQ)
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