quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Quadrinhos brasileiros em Angoulême 2016

Por Henrique Magalhães - Marca de Fantasia
Anualmente a França realiza um dos mais prestigiosos festivais de quadrinhos do mundo. O Festival International de la Bande Dessinée d'Angoulême é a grande referência do pulsante mercado francês de quadrinhos, mas vai muito além disso ao promover um grande fórum sobre a arte, um balcão de negócios para o mercado editorial, inúmeros lançamentos de álbuns e revistas, exposições, debates, concursos e, claro, o incentivo à produção independente.
O Prix de la BD Alternative, ou Prêmio da HQ Alternativa, é atribuído a cada edição aos fanzines e revistas coletivas que se destacam por sua inventividade e renovação artística. Dele concorrem publicações de todo o mundo, levando ao festival a diversidade dos quadrinhos de várias línguas e culturas e suas expressões regionais.
O Brasil habitualmente se tem feito representar no Festival de Angoulême, obtendo o reconhecimento de nosso efervescente cenário independente. Philippe Morin, coordenador do Prêmio e editor do PLG, considerado o melhor fanzine francês de quadrinhos, já apontou o Brasil como um celeiro importante desse tipo de publicação e nossa participação em Angoulême corrobora essa afirmativa (veja entrevista abaixo).
        
Seleção brasileira ao Prix de la BD alternative d'Angoulême
Em 2016, das 29 publicações selecionadas para concorrer ao Prix de la BD Alternative cinco são brasileiras: Café EspacialMaria Magazine, Espresso, O Tiraço e Maidan. Veja o anúncio oficial, bem como os demais concorrentes aqui.
O anúncio foi feito em 20 de janeiro e o resultado da premiação, a ser promulgado por um júri de especialista, ocorre no dia 30, no encerramento do festival. Não é a primeira vez que marcamos presença no Festival de Angoulême e o fato de ser selecionado já representa um grande prestígio para nossas publicações e para o conjunto do fandom brasileiro.

 
"Esnobar a HQ alternativa seria se privar do futuro"

Entrevista de Philippe Morin Sexta-feira, 30 de janeiro de 2015, às 16h42
Philippe Morin, o primeiro vencedor do "Prix du Fanzine" (em 1982!), atualmente é responsável do "Prix de la bande dessinée alternative", que o sucedeu. Ano após ano, ele vê desfilar aqueles que serão os grandes talentos de amanhã e farão evoluir a história em quadrinhos em nível mundial.

Por que o festival abre espaço para a história em quadrinhos alternativa?
Philippe Morin: No início não se falava de HQ alternativa, mas de fanzines. Fanzine vem de "fanatique-magazine". Eles apareceram nos anos 1920 nos EUA, e na França a partir dos anos 1960. Desde o começo o festival se interessou pelos fanzines. Um dos fundadores do festival, aliás, escrevia para um deles. As edições estavam expostas em Angoulême desde o primeiro ano, em stands visíveis... E em 1982, o prêmio do fanzine foi criado.
Por que os artistas primeiramente decidem criar fanzines?
P.M.: Temos que recorrer ao contexto histórico. Vivíamos em um mundo sem internet, sem nem mesmo as rádios livres. O único meio de comunicar sua paixão e encontrar outras pessoas também apaixonadas como si, na época, era editar seu próprio fanzine.
Mas hoje, por que o prêmio do fanzine transformou-se em prêmio da HQ alternativa? Simplesmente porque os fanzines quase não existem mais. Ou, em todo caso, não mais da mesma forma. Aqueles que antigamente faziam fanzine, hoje fazem blogs ou sites na internet. Por outro lado, a criação de HQ, em termos de vanguarda, se desenvolveu extremamente. Hoje, temos cada vez mais revistas feitas por estudantes ou autores semi-profissionais que fazem coisas super instigantes e muito menos formatada que a produção que encontramos nas bancas de revistas. E é o que nos interessa: essa gente que vai trabalhar nas fronteiras da figuração narrativa, tentar ultrapassar os limites. Ao ponto que, às vezes, não sabemos mais se se trata ainda de HQ! Nós partimos do princípio que tanto quanto as imagens são utilizadas para contar uma história, isto é uma HQ. Mas recebemos realmente coisas surpreendentes, em que o conteúdo depende enormemente da forma, e vice-versa.
"Lewis Trondheim começou em Angoulême com um fanzine.
E à época, ninguém fazia fila para comprá-lo!"
Hoje, para o "prix de la bande dessinée alternative", você recebe candidaturas do mundo inteiro...
P.M.: Dos 30 candidatos selecionados (em 2005; ndr) 16 não são franceses. O prêmio da história em quadrinhos alternativa do festival de Angoulême é o mais renomado internacionalmente. Temos candidaturas do Brasil, de Taiwan... No outro lado do planeta se sabe que durante quatro dias Angoulême é o centro do mundo da HQ.
Mas é algo que evoluiu muito ao longo dos anos. Historicamente, os três grandes países produtores de HQ (França, EUA, Japão) já apresentaram seus fanzines. Hoje são os países que têm uma emergente cultura de HQ que se mostram. Por exemplo, eu creio que não haja atualmente nenhum editor profissional no Brasil, mas, paradoxalmente, lá há um verdadeiro desenvolvimento dos fanzines. E isso é uma notícia muito boa: os autores, mas também os editores de amanhã, sairão dos fanzines de hoje. É por isso que esnobar os fanzines e a HQ alternativa seria um erro: seria como se privar do futuro.

Tradução: Henrique Magalhães. Veja o texto original aqui.
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