sábado, 1 de setembro de 2012

De chato, só o sobrenome

Por Milena Azevedo - GHQ

O medo da virada do milênio impregnou o ano 2000 de superstições, gerando diversas teorias conspiratórias e apocalípticas.
Vivenciando aquele momento de histeria coletiva, Daniel Clowes criou uma graphic novel sarcasticamente adorável, chamadaDavid Boring (136 páginas, preto-e-branco e colorido, US$ 21,95), publicada pela Pantheon Books.
Numa trama lynchiana, repleta de situações absurdas, Clowes apresenta o segurança David Jupiter Boring, cujo pai era um popular quadrinhista entre as décadas de 1960 e 1970, ao que o próprio David faz questão de esclarecer não se tratar do desenhista do Superman, Wayne Boring.
David pouco se recorda do pai, e nunca entendeu o porquê da separação. A única referência que o jovem guarda é uma HQ chamada The Yellow Streak, publicada em 1968, considerada “obscena” por sua mãe.
Sem conseguir se enturmar na cidadezinha onde nasceu, e louco para escapar das garras superprotetoras da mãe, assim que termina o ensino médio ele se muda para a Geyserville com sua amiga lésbica Dot, com quem planeja fazer um filme erótico “cabeça”.
Apesar de não ser um pegador, em Geyserville David consegue sair com algumas moças bonitas, sempre à procura da mulher que se encaixasse em seu minucioso padrão de beleza, cujas nádegas teriam a curvatura perfeita.
Durante a adolescência, ele fez um caderno de recortes com diversas mulheres nuas e tem um dom peculiar de descrever os glúteos de uma mulher apenas vendo seu semblante.
As coisas iam caminhando relativamente bem até que Whitey, outro amigo de colégio que David não via há muito, é assassinado em sua primeira noite na cidade.
David inicia uma investigação por conta própria, acreditando ser um dos suspeitos da polícia. Então, ele conhece Wanda, a garota ideal, e acontecimentos bizarros alteram a sua rotina.
Diferentemente de Enid e Becky, de Mundo Fantasma, David é introvertido e vive absorto em seus pensamentos. Enquanto elas ridicularizavam o mundo exterior, ele ridiculariza a si mesmo por não conseguir fazer um simples filme, achando que todas as histórias já foram contadas. Suas ações são moldadas pelos olhos de Dot e Whitey.
A entrada de Wanda na vida do rapaz marca o início de seu amadurecimento, trocando a passividade e a insegurança por iniciativas próprias. Deixando o passado para trás e não se questionando sobre o futuro, David descobre que estar com os pés no presente é a chave para uma vida feliz.
O título da graphic novel induz o leitor a pensar que David é chato e sua vida, monótona (boring significa isso, em inglês). Mas o que era pra ser “uma comédia romântica se transforma numa história de terror com toques góticos”.
Em David Boring, Clowes constrói brilhantemente uma dupla metanarrativa. Primeiro ao fazer com que os personagens da HQThe Yellow Streak (quadros coloridos, mostrados esparsamente ao longo da trama) atuem como uma metáfora para a história principal – lembrando, de leve, Os contos do Cargueiro Negro, em Watchmen –, bem como deixando no ar que a trama narrada, na verdade, é o filme Crime and Judy, escrito e estrelado por David e Dot.
(Resenha publicada no Universo HQ)
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