segunda-feira, 4 de maio de 2015

Vale a pena investir em quadrinhos?

Foto: Getty
Colecionadores advertem que gibis nem sempre dão retorno financeiro
O primeiro amor do americano Scott Roby não foi uma vizinha nem um menina da escola, mas sim uma revista em quadrinhos da Marvel.
Ele adorava os gibis de folhas finas por causa "das histórias de super-heróis cheias de cores vibrantes", e ficava fascinado com as páginas em que apenas um desenho mostrava toda a ação. Isso sem falar no suspense deixado no ar na última página.
Hoje, aos 49 anos, esse dublador e professor do Estado de Maryland é dono de uma coleção de quase 1,1 mil revistas de quadrinhos, reunidas ao longo de praticamente 30 anos.

Os gibis são guardados em caixas especiais em um escritório em sua casa. Quase todos são escritos e ilustrados por seus autores e ilustradores favoritos. Entre os preferidos estão a série The Sandman, de Neil Gaiman, dos anos 90, The Invisibles, de Grant Morrison, Planetary, de Warren Ellis, e East of West, de Jonathan Hickman.

Apelo global

Foto: Heritage Auctions
Revista com estreia de Batman foi vendida por US$ 1,1 milhão
O apelo das histórias em quadrinhos é duradouro e mundial, segundo observadores do setor e fãs. Eles acreditam tratar-se também de uma mina de ouro para produtores de cinema e televisão, que estão sempre em busca personagens dinâmicos, roteiros emocionantes e receitas de sucesso em massa.
A série As Aventuras de Tintin, por exemplo, criada pelo belga Hergé (pseudônimo de Georges Remi), foi adaptada em inúmeros filmes. Já os quadrinhos japoneses, ou mangás, influenciaram os traços e o desenvolvimento de histórias em todo o mundo.
"As pessoas têm uma atração natural por revistas em quadrinhos", afirma Barry Sandoval, diretor de operações da Heritage Auctions, uma casa de leilões em Dallas.
Escolas e bibliotecas públicas agora reúnem revistas em quadrinhos "para motivar a leitura e aumentar o envolvimento das crianças com a escrita", enquanto adultos "curtem a nostalgia, os personagens fortes, a fantasia e a própria arte”.
Outros compram gibis como investimento, apesar de alguns especialistas alertarem para terem cautela porque o retorno não é garantido.
Andy Colman, um colecionador de 50 anos que vive em Londres, foi comerciante de revistas em quadrinhos por vários anos, e alerta contra esse tipo de investimento.
"O dinheiro demora para voltar", afirma. "Esse é o tipo de hobby que se adota pela diversão e não apenas pelo retorno financeiro."

Exemplares de milhões

Foto: Heritage Auctions
Lançamento de personagens no cinema faz revistas se valorizarem
Para quem quer investir mesmo assim, a principal dica é ficar de olho na data de publicação da revista, assim como em suas condições gerais.
Os títulos mais raros e cobiçados que estão preservados e com sua capa original chegam a valer milhões de dólares em um leilão. Mas o valor cai se a peça também está caindo aos pedaços.
A chamada "era dourada" dos quadrinhos vai de 1938 a 1950, quando surgiram o Super-Homem, a Mulher Maravilha, o Capitão América e outros super-heróis. Revistas dessa época são as que valem mais.
A "era de prata" ocorreu entre 1956 e 1970, e com ela vieram personagens como o Quarteto Fantásticos, o Homem-Aranha, Thor, o Incrível Hulk, o Homem de Ferro, os X-Men e os Vingadores.
Finalmente, a "era de bronze", de 1970 a 1985, foi quando as histórias ficaram mais sombrias e quadrinhos independentes começaram a influenciar os títulos mais conhecidos.
Segundo Eric Thornton, gerente da loja Chicago Comics, os gibis que mostram as primeiras aparições de personagens populares se valorizam entre 10% e 15% a cada ano.
Em 2010, a Heritage Auctions vendeu uma cópia do número 27 de Detective Comics, em que o Batman aparecia pela primeira vez, por quase US$ 1,1 milhão (R$ 3,2 milhões). Em agosto de 2014, uma cópia do número de estreia de Action Comics, com o Super-Homem, foi vendido no eBay por US$ 3,2 milhões.
Colecionadores do mundo todo também apreciam títulos da França e da Bélgica, como Asterix e Lucky Luke, ou ainda a obra do cartunista Jean Gireaud, conhecido pelo pseudônimo de Moebius.

Futuro da nostalgia

Foto: Getty
Clássicos belgas, como Tintin, e franceses também fazem sucesso entre colecionadores
Outra dica de especialistas é ficar de olho em grandes lançamentos do cinema baseados em personagens dos quadrinhos. "Antes e depois do filme estrear, essas revistas tendem a se valorizar rapidamente, por um curto período", diz Mark S. Zaid, advogado e colecionador de Washington.
Revistas dos anos 50 com temas de faroeste, assim como títulos da Disney, estão entre os menos cobiçados. A maioria das novas revistas também não se valorizam porque existem milhares de cópias delas.
A melhor maneira de vender ou incrementar sua coleção é participar de leilões especializados. Também é uma prática comum encontrar interessados em convenções de quadrinhos. A maior delas é a Comic-Con International, que ocorre em San Diego, nos Estados Unidos.
Os especialistas recomendam cuidado no eBay e em outros sites, já que não é possível verificar a autenticidade do produto antes da compra.
"Uma boa maneira de saber no que investir é pensar de que títulos um garoto que hoje tenha oito anos vai ter saudades quando tiver 35 ou 40 anos", recomenda Sandoval, da Heritage Auctions.
"É importante investir em coisas que transcendam a subcultura e que venham a se tornar parte da cultura pop", diz Peter Birkemoe, dono da The Beguiling Books and Art, em Toronto, no Canadá.
E, assim, como todo item de coleção, é preciso cuidar bem de suas revistas, guardando-as em um local escuro, seco e com temperatura controlada. Nos Estados Unidos, colecionadores mais cautelosos chegam a guardar suas coleções em cofres ou fazer um seguro contra roubo.
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