Mauricio de Sousa fala ao iG sobre sexo na Turma da Mônica Jovem e de sua sucessão na empresa
O gibi que traz o início do namoro de Mônica e Cebolinha já vendeu mais de 500 mil exemplares. A informação foi passada ao iG pelo criador dos personagens, Mauricio de Sousa. A HQ, da série "Turma da Mônica Jovem", chegou às bancas em 27 de maio. Conheça a página de Quadrinhos do iG
Lailson dos Santos/divulgação MSP
Mauricio de Sousa fala sobre sexo nos gibis da Turma da Mônica Jovem: "Não podemos fugir da realidade"
Inicialmente publicada em 2008 e adotando o estilo mangá, a versão
jovem dos personagens conquistou uma nova legião de fãs, ávidos por
acompanhar a adolescência de Mônica e companhia. A intenção de Sousa com
a iniciativa é reestabelecer contato com os leitores mais velhos e
abordar assuntos como sexo e drogas. Quando rabiscou a primeira tirinha do cãozinho Bidu, em 1959, o
quadrinista e então repórter policial Mauricio de Sousa dava o primeiro
passo para a formação de um império do entretenimento infantil que, em
2011, já ultrapassou um bilhão de revistas publicadas e atinge leitores
em mais de 30 países. Agora, com o sucesso dos quadrinhos mais que consolidado, Mauricio aposta suas fichas em produções animadas para a TV.
A primeira delas, estrelada pela Turma do Penadinho, deve estrear no
fim deste ano no canal da TV paga Cartoon Network - e posteriormente ser
exibida na Rede Globo. Depois disso, os planos envolvendo animações seguem com as séries do
personagem Astronauta e da Turma da Mônica Jovem, além de um
longa-metragem do dinossauro Horácio, previsto para 2014. Leia abaixo a entrevista de Mauricio de Sousa ao iG. iG: O início do namoro entre Mônica e Cebolinha vai
estimular a abordagem de temas como sexo na adolescência em "Turma da
Mônica Jovem"?
Mauricio de Sousa: Não sei ainda. Se nós sentirmos que o
público aceita, se não houver muito pé atrás, acho que podemos tocar no
tema, mas nunca o sexo será o assunto de uma história. Podemos falar dos
primeiros momentos de uma preocupação, dúvidas sobre o assunto, mas não
exatamente de sexo.
Capa da edição 34 de "Turma da Mônica Jovem"
Nos primeiros anos na escola os professores já falam com as
crianças sobre o assunto, não podemos fugir da realidade. Mas vamos
fazer de uma forma que atenda ao jovem e não choque os adultos e
crianças que leem as revistas. Temos que ter cuidado, pois essas
publicações circulam em três faixas de público.
Siga o iG Cultura no Twitter É como se estivéssemos na mesa de jantar, onde os assuntos são discutidos naturalmente para toda a família. iG: Você acha que tratar de sexo é mais difícil do que de drogas ou de abuso de álcool?
Mauricio de Sousa: Quando eu comecei a série já pensei em usar
esses assuntos. Tanto que eu coloquei na capa da revista "aconselhável
para maiores de 12 anos". Mas aí descobrimos que a garotada de 8, 9 anos
estava comprando o gibi. Falei "Xi! Não posso partir para algo dessa
profundidade". Por isso acabei suavizando o processo, focando as
histórias num lado romântico, e me distanciei desses temas que eu queria
abordar. Mas vai chegar o momento, só não sei quando e de que maneira. Costumo
dizer que a Turma da Mônica não levanta bandeiras, mas se passa uma
bandeira que todos estão segurando, pegamos ela. iG: Você disse que a Turma da Mônica Jovem surgiu de um desejo
seu de manter contato com o seu público, que estava cada vez
amadurecendo mais cedo. Como você vê esse encolhimento da infância?
Mauricio de Sousa: Isso tem sido uma coisa normal por causa do
tipo de educação e informação que chegam às crianças. A internet, os
games... A criança está receptiva para um monte de informações e
liberdades que não tinha até muito recentemente. Consequentemente ela pula etapas na fase de desenvolvimento - não no
desenvolvimento físico ou na maturidade, mas nos hábitos. Por causa
disso a garotada está adotando costumes de adolescentes mais cedo - às
vezes nem sabendo o motivo de usar aquela roupa ou falar daquele jeito. Foi aí que percebi que as nossas revistas clássicas estavam fugindo
das mãos da garotadinha antigamente que lia até os 14, e agora aos dez
já achava coisa de criança. Foi quando resolvi criar essa alternativa,
misturando o mangá com os personagens da Turma da Mônica. iG: Qual a sua opinião sobre a publicidade direcionada para o público infantil?
Mauricio de Sousa: Eu acho que houve desacertos, não acho que
foram abusos, mas desconhecimento ou falta de informações e adequações
de algumas empresas, que estavam esquecendo-se de coisas evidentes que
envolvem os cuidados que devemos ter na orientação da criançada quanto a
costumes, hábitos, alimentação... Cuidados com o corpo e a saúde. Sou contra proibições. Acho que a família precisa ser chamada para
cuidar mais e melhor da situação dos filhos. Os pais precisam
rejuvenescer para entender os jovens e os jovens precisam entender suas
responsabilidades na família. Sou totalmente contra leis e decretos de proibição, ou que formulem
que o Estado deve cuidar da criançada ou da família - o Estado precisa
cuidar de coisas mais graves como a educação, o contrabando, e nós
precisamos reeducar não apenas as crianças, mas as famílias, para que
assumam o cuidado dos filhos. Com isso vamos evitar a violência, o
bullying, a desobediência...
Mauricio de Sousa em ação: "Às vezes desenho uma parte das histórias que me enviam pela internet"
iG: Você mencionou em outras ocasiões um
projeto do Chico Bento jovem, com uma proposta mais ecológica, mas até o
momento nada foi divulgado. Esse projeto ainda existe?
Mauricio de Sousa: Queremos abordar as possibilidades das
pessoas do campo permanecer no campo, se profissionalizarem, melhorarem a
qualidade de vida e não precisarem deixar suas raízes nem nada. Isso já
ocorre no Brasil e em outros países. E eu estou pesquisando essas áreas
com informações do Ibama, Embrapa, ONGs, para pegar exemplos reais e
criar o "Chico Bento Moço", pois em "caipirês" não existe jovem, é moço.
iG: Você ainda escreve histórias para as revistas?
Mauricio de Sousa: Às vezes eu sugiro. Como tenho uma grande
equipe de roteiristas eu leio, analiso e até desenho uma parte das
histórias que me enviam pela internet. iG: Os roteiristas não trabalham na sede da Mauricio de Sousa produções?
Mauricio de Sousa: A maioria deles trabalha fora. Tenho gente
no Norte, Nordeste, Sul... Foi uma proposta que fiz há três anos e
funciona maravilhosamente. Eles vivem melhor, tem qualidade de vida, não
pegam trânsito pra ir trabalhar - e faz com que o material chegue
diversificado. Aqui, quando todos trabalhavam no mesmo ambiente, um
colava do outro. iG: Quando você se aposentar as histórias da Turma da Mônica continuarão a ser publicadas?
Mauricio de Sousa: Lógico! Estou no meio de um projeto de
sucessão, praticamente pronto, que deve ser colocado em prática no ano
que vem, para que eu tenha delegados em todas as áreas e a coisa
continue. Fora de cogitação que isso pare.
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