quarta-feira, 4 de junho de 2014

David Goyer, Stan Lee e a polêmica da Mulher-Hulk

Savage-She-Hulk-1
A coisa toda começou pequena – duvido, honestamente, que David Goyer tivesse sequer consciência de que uma de suas opiniões fosse se tornar algo assim tão grande, em especial nas redes sociais. Afinal, ele estava apenas participando de um podcast chamado Scriptnotes, que foi ao ar na terça-feira (20). Papo vem, papo vai, o atual roteirista do Universo DC nos cinemas (além de ter trabalhado com Christopher Nolan em sua bat-trilogia, ele escreveu O Homem de Aço e está escrevendo Batman v Superman: Dawn of Justice) começou a falar sobre diversos personagens de quadrinhos, inclusive sobre aqueles da concorrência – leia-se Marvel. Os nomes eram escolhidos quase que aleatoriamente. Até que pintou o nome da Mulher-Hulk. E eis que Goyer soltou a bomba.
“Eu tenho uma teoria sobre a Mulher-Hulk”, começou ele. “Ela foi criada por um homem, certo? Em uma época em que 95% dos leitores eram homens e e certamente todos os escritores eram homens. Então o Hulk era esta clássica fantasia masculina de poder. A maioria das pessoas lendo quadrinhos eram estes garotinhos que tinham os traseiros chutados todos os dias. E aí eles criaram a Mulher-Hulk, certo? Que ainda era esperta. Eu acho que a Mulher-Hulk é a garota com quem você poderia transar se você fosse o Hulk, entendeu o que quero dizer? A Mulher-Hulk era a extensão da fantasia masculina de poder. Então, se eu fosse este geek que se transforma no Hulk, vamos criar uma estrela pornô gigante para mim”. 

Bom, a declaração de Goyer está errada em tantos aspectos que temos que analisá-la por partes. A começar pela mera sugestão da Mulher-Hulk servindo sexualmente o Hulk – o que é de um mau-gosto terrível. Criada em 1980 por Stan Lee e John Buscema, a personagem Jennifer Walters era prima de Bruce Banner. Nascida na cidade de Los Angeles, Jennifer frequentemente passava as férias de verão com os parentes da mãe dela, os Banners, na pequena cidade de Dayton, Ohio. Apesar da diferença de idade de cinco anos, Jennifer e Bruce ficaram tão íntimos quanto irmão e irmã, mas pararam de se ver depois que Banner deixou Dayton e foi para a faculdade no Novo México (o resultado disso, que o levaria a trabalhar com o projeto da Bomba Gama, você conhece bem). Anos se passaram, eles perderam contato, Banner virou o Hulk. Já tomado pela maldição do Golias Esmeralda, Bruce foi visitá-la, tentando retomar laços com seu passado. Foi a mesma época em que a prima, já advogada, defendia um capanga de nome Lou Monkton, que o criminoso Nicholas Trask queria a todo custo apagar. Jennifer acabou baleada e Bruce, para ajudá-la num momento em que perdia muito sangue, fez uma transfusão de sangue caseira, salvando a sua vida. Mas seu sangue irradiado acabou transformando Jennifer definitivamente. Ela se tornou a Mulher-Hulk – com a força do primão mas sem a perda de consciência/inteligência. Ficou enorme, forte, verde e tornou-se um dos personagens mais divertidos da Marvel.
(Não nos questione sobre os motivos que levaram um brilhante cientista nuclear como Banner a fazer uma transfusão como esta e inocentemente nem sequer ter imaginado o que poderia causar à prima, já que sabia do que tinha acontecido com ele desde o incidente no Novo México)
“Eu estava procurando uma nova heroína feminina e a ideia de uma Hulk inteligente me pegou de imediato”, revelou Stan Lee em entrevista ao blog Comic Riffs, do jornal The Washington Post, procurado justamente para repercutir os comentários de Goyer. E ele rebate, na lata: “Nem por um instante eu quis que ela fosse um interesse romântico para o Hulk. Somente um maluco pensaria nisso”, afirmou o criador, novamente lembrando que os dois são primos. Mas e sobre ela ser uma “fantasia masculina de poder”, Stan? O velhinho também não pestanejou. “Quanto à beleza e ao corpo curvilíneo da personagem, bem, me mostre uma heroína que não seja assim”.
Pode ser que Goyer estivesse, de fato, querendo mais fazer mesmo este tipo de crítica ao estereótipo da mulher retratada nos quadrinhos de super-heróis – conforme nós mesmos do JUDÃO falamos nesta matéria aqui. Mas ele o fez usando justamente uma das poucas personagens da Marvel que simplesmente não poderia.
Sensational-She-Hulk-1
Talvez Goyer não saiba mas, no fundo, a Mulher-Hulk foi criada como parte do incansável plano de Stan Lee para tornar a Marvel uma empresa multimídia, levando seus personagens para a TV e para o cinema. Em 1978, a editora emplacou a mais do que bem-sucedida série de TV do Hulk, com Lou Ferrigno e Bill Bixby. Mas eles queriam mais, muito mais. Olharam para trás e viram que uma das formas de perpetuar o sucesso da série O Homem de Seis Bilhões de Dólares (1974) foi criar, dois anos depois, um spin-off, estrelado por uma ciborgue feminina, A Mulher Biônica. A intenção era, mais do que deixar os homens babando com a beleza estonteante de Lindsay Wagner, apresentar uma personagem que fosse aspiracional para as jovens espectadoras.
Fez as contas? Entendeu onde Lee queria chegar com a Mulher-Hulk e quem ele queria atingir? Infelizmente, acabou não dando certo e, apesar de uma brilhante fase metalinguística conduzida por John Byrne, ela acabou não atingindo os níveis de popularidade de outros personagens e não saiu de sua versão de papel – que fez parte dos Vingadores, do Quarteto Fantástico, entre outros grandes grupos da editora.
 Goyer errou porque focou sua crítica justamente em uma das personagens mais feministas dos gibis de heróis. Apesar da força e das atividades super-heroísticas, Jennifer – que sempre teve a identidade revelada publicamente, até porque seria complicado esconder a pele verde e o tamanho exagerado – nunca largou o oficio de advogada, sempre exercido com brilhantismo. Tanto é que ela acabava sendo a opção (ao lado de Matt Murdock, o Demolidor) de seus colegas uniformizados que tinham, por algum motivo, que ir parar nos tribunais. A inteligência sempre foi parte integrante da personagem. A personalidade forte também – a Mulher-Hulk sempre soube se defender muito bem e nunca foi a dama em perigo, a jovem a ser salva pelo herói de armadura, a donzela que se entregaria nos braços do super-herói ao fim da batalha com o supervilão. Jennifer é gata, é toda gostosona, tem um corpão. Mas a sexualidade, ao contrário de outras personagens, nunca foi seu elemento definidor. Especialmente na fase Byrne, sua sensualidade vinha acompanhada de uma boa dose de humor. Afinal, sendo assim tão grandona, a moça também era um bocado desengonçada. E isso era muito divertido. Muito tempo antes do Deadpool falar com os seus próprios leitores, veja.
Viu, Goyer, meu querido. Por isso é que a gente acha que você errou. Talvez você deva se lembrar da Poderosa que você mesmo escrevia em sua passagem pelo título da Sociedade da Justiça, com aquele decote inexplicável. E talvez deva ficar ligado no tipo de retrato que pretende dar para a Mulher-Maravilha (vivida por Gal Gadot) em seu Batman v Superman. Sei lá. Só acho.
Para finalizar, Charles Soule, atual roteirista dos gibis da Mulher-Hulk, fez um sutil comentário no Twitter sobre o caso: “Trabalhando hoje no número 8 da Mulher-Hulk. Cara, ela é uma grande mulher. Não espalhem a negatividade. Se as pessoas estão confusas sobre os valores de uma personagem, não percam seu tempo odiando-as. Deixe a indignação de lado e tente alcançar mais gente”.
Fim de história.

Via Judão
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