Tok Tok # 03 |
Em
meio à instabilidade política do Egito, o jovem quadrinista Shennawy
retrata as mutações sociais e culturais das ruas do Cairo. Duas semanas
antes das manifestações de janeiro de 2011, que derrubaram o presidente
Hosni Mubarak e deram início à Primavera Árabe em território egípcio,
ele e um grupo de oito artistas haviam fundado a Tok Tok,
uma revista trimestral coletiva que está reanimando a cena dos
quadrinhos no país. Até o final dos anos 2000, a HQ se encontrava
praticamente extinta por lá; as poucas publicações eram dedicadas ao
público infantil, e quase nunca abordavam assuntos pertinentes. Apesar
das limitações impostas pelo novo regime militar, os colaboradores da Tok tok usam
a representação ácida da sociedade para tentar expandir os horizontes
temáticos e estéticos da nona arte do Egito. “Para nós, é um desafio”
diz Shennawy, de 36 anos, em entrevista por e-mail. “Não faz muito, a
cena da HQ estava morta no país. Lançamos a Tok Tok porque
queríamos reunir diversos artistas apaixonados. Ao mesmo tempo,
sentíamos que os leitores precisavam de algo que falasse do agora, do
nosso momento. Aos poucos, o termo ‘história em quadrinhos’ está
voltando ao vocabulário das novas gerações de adultos.”
Mesmo
satisfeito em desbravar terras desconhecidas, Shennawy sabe que, a
qualquer momento, a censura poderá bater à sua porta. Já aconteceu com
diversos colegas, incluindo Magdy el Shafee – considerado por muitos o
principal quadrinista egípcio e autor de Metro, a primeira graphic novel do
país. Lançada em 2008, a obra foi retirada das livrarias por causa de
seu “comentário político e social”, e tanto Magdy quanto seu editor,
El-Sharqawy, foram presos pelo governo do então presidente Mubarak.
Blog junta caricatura e texto político
Tok Tok # 0 |
Shennawy
e seus parceiros evitam abordar questões políticas de forma direta.
Mesmo assim, não estão completamente fora do radar da censura. No Egito,
“Tok Tok” é uma espécie de van irregular, que permite se deslocar pelos
bairros mais populares e perigosos das cidades. A ideia da revista é
justamente passear pelo Cairo profundo e expor seus temas sensíveis
(conflitos religiosos, vulnerabilidade das mulheres e falta de
perspectiva dos mais jovens). “Em termos de censura, não mudou muita
coisa depois da revolução”, explica Shennawy, que já foi premiado no
prestigioso festival de Angoulême, em 2009. “O problema continua, só que
agora você não pode falar do Exército ou de Abdul Fatah Khalil Al-Sisi
(protagonista do último golpe de Estado que derrubou Mohamed Morsi). A
coisa está feia por aqui!”
O
renascimento dos quadrinhos no Egito não é um caso isolado. Em diversos
países do mundo árabe (alguns deles com pouca tradição no desenho), a
agitação política propiciou o surgimento de uma nova geração de
artistas, que escolheram a nona arte para expor os impasses da sociedade
e debater seu futuro A internet também é um fator decisivo: ajuda a
driblar a censura e promove um maior contato dos mais jovens com a
cultura pop ocidental. Diretora-editorial do Cartooning for Peace, uma
organização que oferece apoio jurídico a cartunistas perseguidos em seus
países, a francesa Alice Toulemonde acredita que a ilustração esteja
hoje mais forte no norte da África e no Oriente Médio do que na
Europa.“A internet permitiu uma eclosão da cultura de grupo em alguns
países árabes, e a ilustração ocupa uma parte importante neste
movimento: é o símbolo de um novo pensamento e da luta pelos direitos
dos jovens”, opina. “Porém, não dá para afirmar que as revoluções
recentes trouxeram uma liberdade geral. A situação para os artistas no
Egito, por exemplo, continua complicada. Entre os países que
participaram da Primavera Árabe, talvez o que melhor apresenta liberdade
de expressão seja a Tunísia.”
Membro
da Cartooning for Peace, o chargista Z é um exemplo importante da
efervescência tunisiana. Em 2007, quando o ex-presidente Zine El Abidine
Ben Ali controlava com mão de ferro a internet, ele passou a incomodar
as altas esferas políticas com seu blog “DEBATunisie”. Seu
personagem-símbolo é um flamingo rosa, animal que está sendo caçado em
seu habitat. Ele representa os projetos urbanos duvidosos que expulsam
milhares de cidadãos de suas casas. Mas o cartunista, que se mantém
anônimo até hoje, passou da conta. Depois de criticar a corrupção do
governo e atacar diretamente Ben Ali em desenhos mordazes, o blog foi
retirado do ar em 2008. Pior: no ano seguinte, uma blogueira que
republicou uma de suas charges acabou sendo confundida com o chargista.
Permaneceu cinco dias na prisão, e só foi liberada depois de uma
mobilização internacional. Abalado com o episódio, Z se exilou em Paris,
onde vive atualmente.
Desde
a queda de Ben Ali, contudo, a censura praticamente desapareceu. A
Revolução de Jasmim, em 2010, desmanchou o cerco à internet.
Aproveitando a nova onda de ousadia, seu “DEBATunisie” voltou a ficar
acessível no país. “Agora, há uma real liberdade de expressão”, confirma
Z. “A censura oficial acabou, mas alguns tabus permanecem. A religião
ainda é um instrumento de censura. Hoje zombo bastante dos islamitas, o
que é muito fácil já que a própria existência dos islamitas é uma piada.
No que me diz respeito, nunca fui perseguido pelo Estado, mas recebi,
pela internet, ameaças de indivíduos que não suportam minhas
blasfêmias.”
De
Paris, Z continua retratando os dilemas da Tunísia, uma nação dividida
entre os muçulmanos, que tentam manter-se no poder, e os mauves (as
viúvas de Ben Ali, saudosas da ditadura). Para atacar estes últimos, Z
criou os Ben Simpsons. Inspirados nos personagens de Matt Groening,
representam a burguesia tunisiana “consumista, ocidentalizada, e que só
sabe defender seus interesses”.“Meu blog é um dos raros a juntar
caricatura e texto político na Tunísia” conta. “Na verdade, eu não
saberia falar sobre a ‘tradição’ da HQ tunisiana porque se trata de um
país amnésico. O ministério da Cultura nunca promoveu o setor da HQ e da
ilustração em geral. Ninguém sabe nada sobre o que se fazia nos anos
70. Por outro lado, desde a revolução tenho observado uma explosão de
iniciativas muito promissoras nos quadrinhos.”
Amor e morte como vetor de autodescoberta
Algo parecido vem acontecendo na vizinha – e também francófona – Argélia. O país se tornou uma espécie de decano da HQ na África e no mundo árabe depois de sua independência, nos anos 1960. Mas, passado o período de ouro, os quadrinistas e cartunistas argelinos viveram, a partir de 1992, os dias sombrios do autoritarismo e do terrorismo islâmico. Durante anos, livros foram queimados, e seus autores assassinados. A partir do final dos 2000, porém, a nona arte parece ter renascido das cinzas, com um crescimento significativo de artistas.“Depois que o terrorismo recuou, uma nova geração de cartunistas e quadrinistas passou a ter mais tranquilidade para se manifestar – relata Le Hic, artista com trabalho em diversos jornais argelinos e processado cinco vezes pelo governo no passado (em 2005, chegou a ser preso por causa de um de seus desenhos).
Entre a nova geração argelina, destacam-se quadrinistas mulheres – algo improvável até pouco. Aos 23 anos, Benaouda Faiza pode agora falar abertamente sobre a condição feminina. Recentemente, ela contou em seus desenhos o abuso sexual sofrido por uma vizinha.“Vivemos um período difícil no passado, mas hoje tentamos esquecê-lo e evitar traumas”, diz Benaouda. “As artistas argelinas estão se expressando com total liberdade. Abordam todos os assuntos cotidianos possíveis, sem nenhum tabu.”
A liberdade de expressão, no entanto, nem sempre resulta na consolidação de um mercado para a HQ. Muitos artistas árabes ainda sofrem com a falta de perspectiva editorial. É o caso da libanesa Sandra Ghosn, conhecida por retratar os traumas da guerra civil em fanzines e exposições undergrounds. Com a energia criativa esgotada pelo conflito libano-israelense, a artista se mudou para Paris em 2007, onde cursou a École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs. Nostálgica, ela resolveu voltar para a terra natal no início do ano, onde sobrevive graças a trabalhos como freelancer em revistas infantojuvenis. “A cultura da HQ é quase inexistente no Líbano”, lamenta Sandra. “Os artistas empreendedores, que estavam na origem dos fanzines de que participei, tiveram que desistir por causa dos altos custos. Por outro lado, algumas iniciativas individuais da área privada sustentam centros culturais e ajudam no desenvolvimento de uma cena alternativa fecunda, que consegue escapar da censura.”
Sandra lida com duas realidades distintas. Em seus trabalhos de encomenda, é obrigada a ilustrar um mundo ascético e pudico para o público infantojuvenil, com personagens “arredondados e sorridentes”. Seus chefes, inclusive, pedem para que evite assuntos políticos. Já em seu trabalho autoral, limitado ao circuito underground, ela evoca a impotência dos libaneses diante de uma nação destruída, e tenta resistir ao esquecimento dos horrores pregressos. A sua impactante série de desenhos Phantagma junta amor e morte como um vetor de autodescoberta. “Nasci em 1983, a guerra civil acompanhou a minha infância. O período que veio depois era uma aclimatação à destruição, a uma economia falida e a um governo sem funções, algo que continua até hoje”, conta a artista. “O desenho me restitui uma certa dignidade ao se desvencilhar da atualidade e me envolver numa bolha espaço-temporal só minha. Mas ele não mudará o mundo.”
Autor:
Bolívar Torres, do Globo
Via Obsevatório da Imprensa
Algo parecido vem acontecendo na vizinha – e também francófona – Argélia. O país se tornou uma espécie de decano da HQ na África e no mundo árabe depois de sua independência, nos anos 1960. Mas, passado o período de ouro, os quadrinistas e cartunistas argelinos viveram, a partir de 1992, os dias sombrios do autoritarismo e do terrorismo islâmico. Durante anos, livros foram queimados, e seus autores assassinados. A partir do final dos 2000, porém, a nona arte parece ter renascido das cinzas, com um crescimento significativo de artistas.“Depois que o terrorismo recuou, uma nova geração de cartunistas e quadrinistas passou a ter mais tranquilidade para se manifestar – relata Le Hic, artista com trabalho em diversos jornais argelinos e processado cinco vezes pelo governo no passado (em 2005, chegou a ser preso por causa de um de seus desenhos).
Entre a nova geração argelina, destacam-se quadrinistas mulheres – algo improvável até pouco. Aos 23 anos, Benaouda Faiza pode agora falar abertamente sobre a condição feminina. Recentemente, ela contou em seus desenhos o abuso sexual sofrido por uma vizinha.“Vivemos um período difícil no passado, mas hoje tentamos esquecê-lo e evitar traumas”, diz Benaouda. “As artistas argelinas estão se expressando com total liberdade. Abordam todos os assuntos cotidianos possíveis, sem nenhum tabu.”
A liberdade de expressão, no entanto, nem sempre resulta na consolidação de um mercado para a HQ. Muitos artistas árabes ainda sofrem com a falta de perspectiva editorial. É o caso da libanesa Sandra Ghosn, conhecida por retratar os traumas da guerra civil em fanzines e exposições undergrounds. Com a energia criativa esgotada pelo conflito libano-israelense, a artista se mudou para Paris em 2007, onde cursou a École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs. Nostálgica, ela resolveu voltar para a terra natal no início do ano, onde sobrevive graças a trabalhos como freelancer em revistas infantojuvenis. “A cultura da HQ é quase inexistente no Líbano”, lamenta Sandra. “Os artistas empreendedores, que estavam na origem dos fanzines de que participei, tiveram que desistir por causa dos altos custos. Por outro lado, algumas iniciativas individuais da área privada sustentam centros culturais e ajudam no desenvolvimento de uma cena alternativa fecunda, que consegue escapar da censura.”
Sandra lida com duas realidades distintas. Em seus trabalhos de encomenda, é obrigada a ilustrar um mundo ascético e pudico para o público infantojuvenil, com personagens “arredondados e sorridentes”. Seus chefes, inclusive, pedem para que evite assuntos políticos. Já em seu trabalho autoral, limitado ao circuito underground, ela evoca a impotência dos libaneses diante de uma nação destruída, e tenta resistir ao esquecimento dos horrores pregressos. A sua impactante série de desenhos Phantagma junta amor e morte como um vetor de autodescoberta. “Nasci em 1983, a guerra civil acompanhou a minha infância. O período que veio depois era uma aclimatação à destruição, a uma economia falida e a um governo sem funções, algo que continua até hoje”, conta a artista. “O desenho me restitui uma certa dignidade ao se desvencilhar da atualidade e me envolver numa bolha espaço-temporal só minha. Mas ele não mudará o mundo.”
Autor:
Bolívar Torres, do Globo
Via Obsevatório da Imprensa
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