segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Aquarelas da seca

Por Milena Azevedo - GHQ
Para retratar as agruras do sertão nordestino, só mesmo alguém que conviveu de perto com essa dura realidade, na qual o sol marca impiedosamente tanto o chão quanto a pele daqueles que estão sob seus raios.
Na década de 1930, dois escritores narraram, de forma épica, a tenacidade e a fé dos sertanejos retirantes, que deixavam o Nordeste em prol de uma vida abundante nas regiões Sudeste e Norte: Rachel de Queiróz, em O Quinze, seu romance de estreia, publicado em 1930, e Graciliano Ramos, em Vidas Secas, de 1938.
Se o último ganhou uma primorosa adaptação cinematográfica pelas mãos de Nelson Pereira dos Santos, em 1963, o primeiro acaba de ser adaptado aos quadrinhos por Shiko (88 páginas, colorido, R$ 29,90), que respeitou o texto da autora e, ainda assim, teve personalidade para deixar sua marca nele.
A necessidade de um bom inverno, a estação das chuvas no Nordeste, faz o sertanejo ser um grande devoto de São José. A sabedoria popular diz que se a chuva não vem no dia 19 de março, a colheita e o gado minguarão.
Quando não cai uma única gota d’água durante um mês ou mais, é prenúncio de seca. E no ano de 1915 ocorreu a primeira grande seca do Século 20, no Brasil.
Em O Quinze, são mostradas as diferentes trajetórias de sertanejos, moradores de Quixadá, interior do Ceará, naquele fatídico ano.
Se Dona Inácia solta o gado e as galinhas e parte com a neta Conceição para Fortaleza, Vicente compra algumas reses e resiste em Quixadá até o fim, enquanto Chico Bento e sua família migram a pé para tentar a sorte no perímetro urbano.
O olhar triste de uma vaca moribunda para a família de Chico Bento indica que a jornada não será fácil, pois o cenário conclama a morte.

Na capital, Dona Inácia não entende a neta, que prefere os livros à tradição. Isso porque Conceição carrega o idealismo socialista, chegando a doar seu salário para ajudar os retirantes nos campos de concentração, os currais de gente onde famílias são amontoadas pelo governo, agarrando-se à fé em meio à miséria.
E o amor não declarado entre Vicente e Conceição, um vislumbre de felicidade na trama, padece sob fofocas infundadas, tornando seus corações tão áridos quanto à paisagem.
Assim como Rachel de Queiróz, Shiko é nordestino, nasceu em Patos, interior da Paraíba, e somente aos 20 anos se mudou para João Pessoa.
As reminiscências de menino e a sensibilidade artística fizeram-no produzir um belíssimo álbum, ao registrar com traço realista e pinceladas em aquarela, as expressões, os trejeitos, as cores (que se revezam entre vermelho-cobre, amarelo e algumas porções de azul), os ângulos e enquadramentos (fechados, em sua maioria, dando um tom intimista à obra), a fumaça do cigarro que projeta lembranças, e os delírios causados pela mistura de insolação e fome daqueles forçados a perder o pouco que tinham, trilhando caatinga adentro para garantir a sobrevivência dos seus.
Numa edição que traz contexto histórico, biografia dos autores e curiosidades sobre a adaptação do romance para os quadrinhos e uma das melhores capas do mercado de quadrinhos nos últimos anos, a Ática demonstra todo o esmero que está tendo com o selo Agaquê, criado em 2011.
Não bastasse o Agaquê ter publicado excelentes graphic novels europeias, a adaptação de O Quinze é a primeira do selo a trazer autores nacionais, muito bem escolhidos, diga-se de passagem, diferenciando-se de muitas outras feitas com oportunismo, primando pela quantidade e comprometendo a qualidade.
(Resenha publicada no Universo HQ)
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