sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Milagres, Maravilhas e plágios

Por Ficção HQ
ENTENDA DE UMA VEZ POR TODAS TODO O CASO MIRACLEMAN/MARVELMAN!
Era uma vez um personagem chamado Capitão Marvel. Assim como a grande maioria dos assim recém-nomeados "super-heróis", ele tinha à sua disposição um leque de poderes que incluía a famosa trindade voo/superforça/invulnerabilidade*. Porém, diferentemente das dezenas de outros super-heróis surgidos durante a Era de Ouro, o Capitão Marvel apresentava um desafio à altura do primeiro deles, Super-Homem, pois o alter ego de Billy Batson vendia, e muito - mais até que o Homem de Aço à época! Devido a isso, a National Comics (que depois se tornaria a famosa DC Comics) impetrou uma ação na justiça acusando o Mortal Mais Poderoso da Terra de plágio do Super, e assim a Fawcett Comics, que publicava o Capitão Marvel, não tendo tanto dinheiro como a National (DC), parou de publicá-lo (e toda a Família Marvel) em 1953.
Enquanto isso, no Reino Unido, a L. Miller & Son, responsável por publicar a Família Marvel na Inglaterra, não estava disposta a desistir de sua maior fonte de renda. Assim, solicitou ao criador Mick Anglo que achasse um substituto. A revista Capitão Marvel #24 foi sucedida no mês seguinte pela revista Marvelman #25. Numa jogada de mestre, Mick Anglo retirou a capa do personagem, mudou seu cabelo para loiro e alterou a frase de poder Shazam para Kimota (a aliteração de Billy Batson se manteve em Micky Moran). E assim nascia um novo super-herói. A revista Marvelman durou até 1963. Marvelman chegou a ser publicado no Brasil, juntamente com Capitão Marvel, mesmo durante as décadas de 50 e 60, e aqui nas terras tupiniquins recebeu o nome de Jack Marvel (?!?) - com as iniciais "MM" de seu peito muitas vezes apagadas.


Aproveitando o lapso deixado pelo nome e a marca, a editora Marvel Comics, durante a Era de Prata, pegou o nome "Capitão Marvel" e lançou seu próprio personagem, o herói alienígena da raça Kree que durante algum tempo trocava de corpos com o adolescente Rick Jones**. Desde 1967, a Marvel Comics é detentora dos direitos de estampar na capa uma revista chamada "Capitão Marvel". Para não perder os direitos do nome, a Marvel Comics sempre lança, periodicamente, alguma revista, minissérie ou personagem novo com o mesmo título, Captain Marvel no original (por isso a quantidade exagerada de personagens na editora que já dividiram o mesmo nom de guerre, incluindo algumas personagens femininas até).
Devido a isso, quando, em 1972, a DC Comics conseguiu comprar o personagem mítico da Fawcett Comics, não pode estampar seu nome nas capas das revistas em que era publicado, em seu lugar decidindo estampar o nome Shazam! E foi desta forma que o personagem da DC ficou conhecidíssimo, principalmente no Brasil, não como Capitão Marvel, mas como Shazam, como se este fosse seu verdadeiro nome. ***
Durante o início da década de 80, um escritor inglês debutante apaixonado pela Era de Ouro foi chamado pela revista britânica Warrior para trabalhar sobre um antigo personagem. Foi assim que Alan Moore começou sua legendária fase reidealizando Marvelman. Moore repaginou o personagem, imaginando um envelhecido Michael Moran tendo sonhos sobre antigas aventuras passadas há quase duas décadas nas quais tinha poderes sobre-humanos e a capacidade de voar. Dentro da história de Moore, o personagem Marvelman havia deixado de existir como tal em 1963 (ano da última publicação do personagem), recuperando sua memória e antigos poderes por volta de 1980 (quando começava a nova história), desconstruindo-o e reconstruindo-o totalmente. Alan Moore criou todo um background novo para explicar não só o sumiço do personagem neste ínterim como também para trazer uma noção mais realista ou verossímil das origens e poderes da Era de Ouro de acordo com visão moderna de super-heróis.

Ao mesmo tempo em que isso se dava, Moore também ficou a cargo das histórias do personagem Capitão Bretanha (ou, como ficou mais conhecido, Capitão Britânia) para a Marvel UK, divisão britânica da editora. Em uma de suas primeiras histórias, Alan Moore e Alan Davis fizeram uma homenagem ao personagem e o inseriram nas aventuras do Capitão Britânia, apenas para matá-lo logo em seguida. Para evitar problemas, nomearam esta aparição especial de Miracleman.

Esta mesma Marvel Comics que empregava Alan Moore para escrever Capitão Britânia entrou com um processo contra a Warrior impedindo que a revista estampasse a palavra "Marvel" em suas capas, e os donos da pequena Warrior não tinham dinheiro para ir legalmente contra a toda-poderosa editora americana.
Mas eis que uma editora americana conhecida como Eclipse Comics passou a publicar o personagem, agora em cores, em solo americano, renomeando-o - adivinhem - como Miracleman para evitar possíveis processos judiciais. E foi assim que o personagem teve 24 edições publicadas, as 16 primeiras por Alan Moore, e as seguintes escritas por Neil Gaiman. Houve ainda algumas edições apócrifas, e o leque total de participantes (entre escritores e desenhistas) é invejável, figurando Mark Buckingham, um incipiente Alex Ross, Gary Leach, Alan Davis, Rick Veitch, John Totleben, Kurt Busiek, Matt Wagner, James Robinson e outros. A fase da Eclipse, sob o nome Miracleman, foi a pela qual o personagem mais ficou conhecido. Infelizmente, a editora faliu antes de concluir toda a saga proposta para o herói.
As questões legais de publicação do personagem nos Estados Unidos apenas com a alteração do nome para Miracleman foi um dos motivos pelos quais Alan Moore declarou nunca mais trabalhar para a Marvel Comics. Outros fatores foram a editora republicar sem sua permissão histórias do Capitão Bretanha (e algumas do Dr. Who) e usar uma chamada para atrair leitores com o slogan "Marvel tem Moore", mas referindo-se ao escritor John Francis Moore.
Na DC Comics, no entanto, Alan Moore fez diversos trabalhos, entre os quais um dos mais marcantes e conhecidos foi Watchmen, revisitando e repaginando antigos heróis da Charlton Comics, editora recém-comprada pela DC, mas alterando seus nomes e personalidades e poderes (Capitão Átomo virou Dr. Manhattan, Besouro Azul virou o Coruja, Questão virou Rorschach etc.). Porém, esta mesma obra foi o motivo pelo qual Alan Moore decidiu também deixar de trabalhar para a editora de Super-Homem. Pelas cláusulas contratuais, Watchmen e seus personagens pertencem à DC Comics, só passando a serem de Alan Moore e Dave Gibbons um ano após a editora parar de publicá-los. Ocorre que Watchmen nunca parou de ser publicada desde 1986, deixando seus direitos para sempre nas mãos da DC. Moore jurou nunca mais escrever tanto para a DC quanto para a Marvel. ****
Este litígio entre os detentores de direitos de personagens foi um dos motivos responsáveis pelo chamado "X-odus", o êxodo de diversos artistas, principalmente da Marvel Comics, para fundar a Image Comics. Entre eles, estavam Jim Lee e Todd Mcfarlane. Todd inventou o personagem Spawn, e em determinado momento chamou alguns escritores de peso para escreverem edições com o Soldado do Inferno. Alan Moore e Neil Gaiman estavam entre os convidados. Na edição número 9, Neil Gaiman introduziu três personagens ao universo do Spawn: Spawn Medieval, Cogliostro e a famosa Ângela. Todd Mcfarlane nunca pagou a Neil Gaiman o devido pelo uso destes personagens em outras publicações e outras mídias. Neil Gaiman entrou então com um processo na justiça para ter direitos sobre os personagens que criou.
Neste ínterim, Todd Mcfarlane comprou os espólios da Eclipse Comics, e se sentiu no direito de incluir os personagens da extinta editora em suas histórias do Spawn, chegando inclusive a lançar uma estatueta do personagem Miracleman com a seguinte inscrição abaixo: "Miracleman is a trademark of Todd McFarlane Productions, Inc. The Miracleman action figure is (copyright) 2003 Todd McFarlane Production". As decisões foram unânimes em favor de Neil Gaiman, e Todd - ironicamente cofundador da Image Comics num momento de reivindicação dos direitos dos personagens - transformou a figura que havia aparecido em sua linha Spawn rebatizado como Man of Miracles (?!?).

Neil Gaiman, para conseguir dinheiro para manter a causa na justiça, escreveu a minissérie 1602 para a Marvel Comics e fundou a Marvels and Miracles LLC. Assim, ficou-se acordado que os direitos sobre os personagens que Neil fez para Spawn permaneceriam com Todd, e em troca Neil deteria os direitos sobre Miracleman. Ao que parece, Neil e Alan Moore concordaram em doar todos os valores relativos ao personagem para Mick Anglo e sua família. Finalmente, o personagem voltou a seu criador.
Em 2009, durante a San Diego Comic Con, Joe Quesada deu a bombástica informação: a Marvel Comics havia adquirido os direitos sobre Miracleman diretamente de Mick Anglo. Assim, o personagem voltou ao seu antigo nome, tornando-se mais uma vez Marvelman. No final de 2011, Mick Anglo, criador do herói, faleceu. A expectativa agora é que a Marvel Comics, além de relançar todos as histórias antigas, relance ainda a fase de Alan Moore e Neil Gaiman escrita na década de 80 e de 90. Os fãs aguardam ansiosamente a publicação deste material de forma completa. Quem sabe, com Neil Gaiman escrevendo material inédito, as famosas fases Bronze Ages e Dark Ages que já havia previsto para o personagem e que nunca pôde concretizar.
* Apenas por curiosidade, pegue o encadernado de Projeto Superpowers e jogue na internet o nome de todos
os heróis da Era de Ouro que lá aparecem para comparar seus poderes. Cerca de 80% deles compartilha a
trindade voo/superforça/invulnerabilidade.
** Entenda todas as semelhanças/dessemelhanças entre os Capitães Marvel aqui em: http://ficcaohq.blogspot.com/2010/10/irreverencia-ou-copia.html
*** Agora em janeiro de 2012 o escritor Geoff Johns declarou que, como o público em geral já associa a palavra Shazam ao personagem Capitão Marvel, e para cortar qualquer ligação ao nome "marvel", no novo universo DC o alter ego de Billy Batson vai se chamar definitivamente SHAZAM.
**** Um dos estúdios fundadores da Image Comics, WildStorm, foi o responsável por publicar algumas das mais recentes HQs de Alan Moore, dentre as quais Promethea, Top10, Tom Strong e Liga Extraordinária, por meio do selo America´s Best Comics. Porém, com a venda da WildStorm para a DC Comics em 1999, indiretamente Alan Moore passou a escrever para a DC novamente, mesmo sem o saber.
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