segunda-feira, 29 de outubro de 2012

FALANDO EM QUADRINHOS… Você já chorou ao ler HQs de super-heróis?

Por Judão - 29.10.12
Homem não chora? Verdade? Você nunca sentiu vontade de chorar ao ler um livro, ver um filme, uma série de TV… ? Não precisa cair em prantos, claro. Não digo isso. O que me refiro é quando você tem contato com algo que realmente mexe com você, que te toca muitas vezes pela vivência que você teve ou por ser, sei lá, realmente muito triste.
Até um SUPER-Homem pode chorar. Basta apenas uma história boa o bastante para fazer isso...
Nas histórias em quadrinhos não é diferente. Infelizmente, vejo poucos comentários sobre pessoas que choraram ao ler uma determinada história. Será preconceito? Medo de falar a verdade? Ou falta de oportunidade?
Afinal, HQs são um pouco diferentes das outras mídias. O grande mercado ocidental, dominado pelas grandes editoras, é dos super-heróis. É sobre o que mais falamos relacionada a quadrinhos aqui no JUDÃO, se você reparar. Fica difícil encaixar histórias emotivas em um contexto super-heroico? Até fica, mas não é algo impossível.
Veja, por exemplo, a clássica HQ A Noite em Que Gwen Stacy Morreu. Até aquele momento, Gwen era a namoradinha de todo o leitor do Homem-Aranha, e não só do herói. Todos eram apaixonados por ela. E a forma como o roteirista Gerry Conway constrói o roteiro, como as coisas vão acontecendo… É chocante quando o Peter tenta salvar a Gwen após ser jogada da ponte e, no processo, ele mesmo a mata. O abraço dele nela em seguida, a carga emotiva… Isso é o suficiente para fazer qualquer marmanjo fã dos personagens deixar escorrer algumas lágrimas pelo rosto. Só que aí, já na página seguinte, Conway já inflama o discurso do Aranha com toda a raiva do mundo. Raiva de um homem que perdeu o grande amor.
Tem como um fã segurar o choro ao ler isso aqui?
Ainda para ficar no mesmo personagem, tem O Menino que Colecionava Homem-Aranha, que citei recentemente aqui no site. Nessa HQ, Peter vai visitar um garoto que o idolatra mais do que tudo. No final, o nosso herói até revela a identidade secreta para o menino. Tudo para dar ao pequeno Tim um pouco mais de conforto e esperança. Infelizmente, o garoto estava no estágio terminal da leucemia.
Esse é, claro, são dois exemplos clássicos. Porém, Marvel e DC são repletas de outras histórias de amor com finais trágicos, criados para levar os leitores ao choro. Veja Crise de Identidade, escrita por Brad Meltzer, autor também de romances em prosa. De maneira instigante, o roteirista nos relembra do grande relacionamento entre Ralph Dibny, o Homem-Elástico, e a esposa Sue. Quando Sue morre e Ralph perde aquilo que mais amava, não há como não ser tocado pela história. No velório de Sue, a imagem do rosto do Homem-Elástico praticamente se desfazendo e em prantos entrou para o rol de fatos marcantes da DC.
Fora que toda a Crise de Identidade é recheada desses momentos emotivos, com os heróis se ligando àquilo que mais importante que cada um possui na vida. É um toque humano àqueles super-seres que salvam a vida tantas vezes na ficção. É o que faz deles reais. É o que transforma a perda deles em algo concreto, tátil, possível de ser vivido e sentido. É, no final das contas, o que nos toca mais fundo.
Há também, como disse, aqueles momentos que você chora não porque necessariamente existe dentro da HQ a carga dramática para aquilo, mas porque a própria vivência que tem se une ao contexto do que está sendo contado. Comigo isso já aconteceu inúmeras vezes. Quer um exemplo? Bom, posso te contar da Guerra dos Aneis, no especial do Kyle Rayner publicado na época e que foi escrito por Ron Marz (criador do personagem) e desenhado pela brasileira Adriana Melo.
A morte de Maura Rayner
Naquele momento, Kyle estava com o corpo dominado por Parallax e, de dentro da própria cabeça, tentava se desvencilhar daquele controle. Assim, ele se viu dentro da casa que foi da mãe dele, morta pouco antes por um vírus intergaláctico colocado pelo Sinestro. Após ser confrontado por todas as mulheres que deixou morrer, incluindo as namoradas Alex, Moça-Maravilha e a Jade, Kyle finalmente vê a mãe, Maura. Todas o atormentam, falando que ele foi a razão da morte delas. Sem conseguir derrotar o Parallax dentro da própria mente, Kyle começa a destruir tudo na ~casa da mãe… Até que, sem querer, ele vê a assinatura atrás de um antigo quadro na sala. Lá diz “Maura Rayner”. Foi pintado por ela, apesar dela nunca ter assumido aquilo. Assim, Kyle percebe que tudo que ele é, desde o artista até a pessoa íntegra, tomou forma por causa dela — e que ela sempre estará ao lado do filho.
Além dos heróis
Isso tudo, claro, quando falamos de histórias de super-heróis. Há todo um mercado independe nos EUA que vai muito além (incluindo as HQs do mestre Will Eisner), fora os títulos europeus – continente sempre pródigo em criar graphic novels que realmente mexem com os leitores. Até mangás japoneses podem fazer isso, para a surpresa daqueles que só leem os shōnens…
Aqui no mercado de HQs brasileiras não é diferente. Caeto, por exemplo, contou a vida com um toque de Art Spiegelman em Memória de Elefante, com passagens bem emotivas. E só para mostrar que não são apenas histórias voltadas ao público mais velho que podem te fazer chorar, sugiro que leia A Estrelinha Chamada Mariana, uma história do Chico Bento publicada em 1990. No recente Ouro da Casa, Sidney Gusman faz referência à HQ, que pode ser lida na íntegra aqui.
É, por tudo isso dá para dizer que homem chora, sim. E lendo histórias em quadrinhos. Aliás, abra seu coração: você já chorou lendo alguma HQ?
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