terça-feira, 2 de outubro de 2012

Retrocomics! Zero Hora: zerando o Universo DC. Só que não é em 2012, mas sim em 1994…

Por Judão
Aqui no JUDÃO sempre acompanhamos, de alguma forma, o que está acontecendo nas revistas publicadas pelas grandes editoras de quadrinhos dos Estados Unidos. Seja com resenhas, colunas, notícias, de alguma forma te mantemos atualizado das novidades. No entanto, histórias em quadrinhos não são apenas isso. Há também diversos momentos memoráveis do passado, que devem ser relembrados ou que, de alguma forma, influenciam o presente. Por isso, a partir de agora, teremos uma nova coluna, chamada Retrocomics – e a função é justamente essa, relembrar e comentar edições, minisséries e graphic novels que provavelmente você não conhece ou até conhece, mas não leu.
Capa de Zero Hour #4, imagem inédita no Brasil
Pra começar, vamos pegar o gancho atual da DC. Agora em setembro a editora está promovendo o “mês zero”, no qual todos os gibis do Universo DC estão saindo com o número 0 e, de alguma forma, recontando acontecimentos do passado dos personagens, criando assim uma porta de entrada para os novos leitores que perderam o reboot do ano passado. A partir do próximo mês, todos os gibis retornam para a numeração iniciada em setembro de 2011. No entanto, isso não é, exatamente, uma novidade. A primeira vez que a DC zerou todos os gibis foi em outubro de 1994, durante a saga Zero Hora: Crise no Tempo. Hora, então, de relembrar o que foi isso…
Uma nova Crise
Você já deve ter ouvido falar da Crise nas Infinitas Terras, certo? Bom, esse é um assunto para outra hora, mas o que você precisa saber é que essa foi a primeira Crise de todas, que acabou com a enorme confusão que era a DC na época, com infinitas Terras e diferentes versões dos mesmos personagens. O crossover reuniu todas essas realidades em uma só e deu novas origens para praticamente todos os heróis.
A Crise serviu para reestabelecer a DC, fazendo a editora voltar a fazer frente à Marvel, mas nem tudo deu certo. Algumas iniciativas pós-Crise não foram bem sucedidas, como a tentativa de arrumar a cronologia da Legião dos Super-Heróis em uma Terra na qual Clark Kent nunca foi Superboy. Foi aí que surgiu a ideia de mais uma vez criar uma nova Crise que, ao mesmo tempo em que desse uma turbinada nas vendas, também pudesse realinhar esses problemas cronológicos.
O vilão surgiu do lugar mais improvável possível. Ainda em 1993, a DC havia promovido a saga O Retorno do Superman, na qual também dá início ao projeto de revitalizar o Lanterna Verde. Nessa saga, Coast City, a cidade natal de Hal Jordan, é totalmente dizimada pelo vilão Cyborg Superman. Em seguida, no arco Crepúsculo Esmeralda, Hal Jordan passa a não mais suportar a dor de ter visto todos que amava mortos. Tudo porque ele estava no Espaço, trabalhando sob as ordens dos Guardiões do Universo, quando o ataque aconteceu. Impedido de recriar a cidade pelos anões azuis, Hal pira de vez e mata vários membros da Tropa, incluindo o velho amigo Kilowog. Na luta final, Hal quebra o pescoço do vilão Sinestro – libertado em uma atitude desesperada dos Guardiões – e absorve toda a energia da Bateria Central de OA, matando os Guardiões do Universo no processo. Assim ele se torna o vilão Parallax. O único dos anões que sobrevive é Ganthet. Ele vem até a Terra e entrega o último anel da Tropa para um jovem terráqueo chamado Kyle Rayner.
A partir deste gancho é que o roteirista e artista Dan Jurgens começa a traçar Zero Hora.
O fim dos tempos
Dessa forma, Zero Hora começou a ser publicada da edição 4 em setembro de 1994, retrocedendo até o número 0. Na primeira edição os leitores são apresentados a uma enorme onda de “entropia” que, no passado e no futuro do Universo, vão comprimindo a corrente temporal e “matando” tudo o que toca. Junto com isso começam a surgir anomalias temporais, incluindo a aparição de uma Barbara Gordon como Batgirl e andando, várias versões do Falcão da Noite, entre outras.
Tempus, um personagem surgido poucos anos antes, na saga Armageddon 2001, e um dos membros dos Homens Lineares, responsáveis por manter o espaço-tempo coeso, vai investigar. Ele tenta, de alguma forma, usar outros heróis para deter a onda de Entropia. Wally West, o Flash naqueles tempos e que se vê perdido no futuro por conta das anomalias, tenta ajudar, mas aparentemente “morre” no processo. No Quarto Mundo, os Novos Deuses também percebem que algo de errado está acontecendo no universo. Metron, o cientista dos Novos Deus, vai até Apokolips para entender o que está acontecendo. O vilão Darkseid nada sabe – e Metron resolve ir atrás de novos aliados.
Após a morte de Wally, Tempus encontra a Sociedade da Justiça no presente para entregar o uniforme escarlate, que foi o que sobrou do herói tombado, ao Joel Ciclone (como era chamado, no Brasil, o Flash da Era de Ouro).
Eventualmente Tempus descobre quem seria o responsável por tudo aquilo: Extemporâneo, que nada mais é que o ex-herói Rapina, da dupla Rapina & Columba, e que havia pirado durante a saga Armageddon 2001, se transformando o vilão Monarca. Com a ajuda da Sociedade da Justiça, Tempus não consegue deter o inimigo e, para piorar, descobre que Extemporâneo veio do futuro, quando já absorveu os poderes do próprio Tempus, matando-o no processo. Finalmente, o vilão mata o herói, absorvendo os poderes temporais dele e fechando o ciclo temporal que deve ter deixado muito leitor confuso.

Com o tempo literalmente acabando, o resto dos Homens Lineares se juntam aos heróis da Terra reunidos por Metron. A primeira iniciativa foi transformar Matthew Ryder da atual cronologia em Tempus, tal qual sua falecida contraparte de um universo paralelo. A intenção era usar os poderes da nova versão do herói e assim tentar deter os planos de Extemporâneo para acabar com todo o fluxo temporal.
Não deu certo. As duas barreiras de Entropia correram por todo o fluxo cronológico, chegando finalmente em 1994. No último segundo, antes de todo o tempo e espaço serem destruídos, surge o grande vilão por trás daquele plano. Era Hall Jordan, agora o Parallax.

Hal acredita que os super-heróis haviam tomado muitas atitudes erradas nos últimos anos. Por que ele se contentaria em apenas reconstruir Coast City se ele tinha poder o suficiente para construir um UNIVERSO melhor? Quer dizer, ele poderia fazer todo um MULTIVERSO! Assim, em Zero Hour #1, após dar um soco e derrubar o próprio Superman, Hal Jordan acabava com o Universo DC, transformando-o, metalinguísticamente, em uma página em branco.
Na edição seguinte, Zero Hour #0, Jordan começa a recriar o Universo como quer. No entanto, o novo Tempus havia levado alguns heróis para fora do fluxo cronal, no Ponto de Fuga, onde elabora um novo plano para acabar com o ex-Lanterna Verde.
Os heróis restantes retornam e, com a ajuda do Espectro, atacam Parallax. O poder do vilão é muito grande, o que obriga a Kyle Rayner segurar o cara enquanto Oliver Queen, o Arqueiro Verde, aquele que foi o maior amigo do antigo Lanterna Verde, atira a flecha final. Nesse momento, alguns dos mais poderosos heróis da Terra energizam o Detonador, personagem que havia acabado de surgir nas HQs, e ele explode, recriando o Big Bang.

Após a explosão, Tempus deixou o fluxo cronológico seguir seu caminho – com algumas eventuais mudanças acontecendo, como a nova origem para a Legião dos Super-Heróis.
Acreditando que o ~novo~ Universo DC era um importante ponto de entrada para novos leitores, a editora – tal como agora em 2012 – publicou em outubro de 1994 apenas edições com número 0, a maioria com as origens dos personagens ou com novos começos para eles. Aquaman #0, por exemplo, é a primeira edição na qual Arthur Curry passa a usar o tal “arpão” no lugar da mão esquerda. Além disso, em Flash #0, Wally West reapareceu vivo e revisitando o próprio passado.
No Brasil
Por aqui, Zero Hora foi publicada como minissérie quinzenal entre agosto e outubro de 1996 pela Editora Abril. A grande diferença é que a editora modificou a capa da primeira edição, famosa por trazer uma mão ainda desconhecida segurando o capuz do Flash, mas manteve a página tripla no final de Zero Hora #0, com toda a nova cronologia da DC detalhada na frente e no verso (se você quiser conferir como era, click aqui). A editora também aproveitou o “Mês Zero” local para zerar a numeração dos gibis de forma definitiva, com todos continuando do número 1 no mês seguinte.
Desde 1996, Zero Hora nunca mais foi republicada no Brasil.
Redenção de um ex-herói
Depois de Zero Hora, Hal Jordan apareceria em algumas edições do gibi do Lanterna Verde, culminando com uma grande participação no final da saga A Noite Final, quando se arrepende dos crimes que cometeu e explode o próprio corpo dentro de um Sol moribundo, reativando a estrela. Anos depois Hal reapareceria como a nova encarnação do Espectro e, finalmente, seria revivido na minissérie Lanterna Verde: Renascimento. Nessa mesma HQ é estabelecido que Parallax sempre foi uma entidade separada, que assumiu o corpo de Jordan como um plano sombrio para acabar com a Tropa e os Guardiões do Universo criado por Sinestro. A própria morte do vilão foi “fake”, ajudando no descontrole de Jordan.
Eventualmente Zero Hora deixou de ser referenciada nas HQs. No entanto, em 2008, o roteirista Geoff Johns fez uma homenagem para a saga em Booster Gold #0, que foi desenhada justamente por Dan Jurgens.
Com o reboot da DC em Os Novos 52, Zero Hora está fora da cronologia da editora.
Uma análise sincera
Quando Zero Hora foi publicada no Brasil, eu tinha 11 anos. Já fã do Lanterna Verde, foi interessante ver a que ponto chegou a loucura de Hal Jordan e a importância do Kyle Rayner dentro da história. Além disso, um enredo no qual o tempo estava, literalmente, acabando parecia ser muito interessante.
Revendo a saga hoje, de longe, Zero Hora demonstra ser mais um dos pontos que exemplificam a falta de criatividade dos anos 90 e de uma DC que não sabia mais o que fazer para levantar as vendas de vários gibis. O engraçado é chegar a essa conclusão e ver, agora, o que a DC tem feito nos últimos 12 meses, desde setembro de 2011. Grande saga com mudanças temporais, nova cronologia, edições 0… Foram exatamente as mesmas ações.
Se em 1994 foi falta de criatividade, imagina em 2012?
É… Assim como o fluxo cronológico, a DC também é cíclica.
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