segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Lembrai o Quinto dia de Novembro!

PorThiago Cardim - Judão

Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder, treason and plot
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot

Ah, se você está lendo isso, imagino que saiba o significado do poeminha acima – um verdadeiro clássico inglês que relembra a Noite das Fogueiras, aquele 5 de novembro de 1605, quando o soldado inglês Guy Fawkes fracassou em sua tentativa de explodir o Parlamento (com todo mundo que estivesse dentro, é claro). Ele fazia parte de um movimento revolucionário católico chamado “Conspiração da Pólvora”, que se opunha ao governo do rei protestante Jaime I. Quando digo que você possivelmente saiba o pequeno poema, é simplesmente porque toda esta trama, incluindo a reprodução do rosto de Fawkes, são parte integrante da ambientação de V de Vingança, uma das obras em quadrinhos mais representativas do escritor Alan Moore.

Agora, se nem leitor de HQs você é, é possível que já tenha visto esta máscara reproduzida na versão cinematográfica da graphic novel (produzida pelos irmãos Wachowski, de Matrix) – ou, quem sabe, no rosto de alguns dos novos grupos de manifestantes revolucionários que andaram pintando por aí, gritando frases de protesto contra a corrupção no “sistema” pelo mundo. Aproveito este dia 5 de novembro, aliás, para falar rigorosamente sobre este último assunto.

A maior parte das pessoas que se dizem “revolucionárias” e saem usando a máscara do V por aí, colocando-o como o símbolo de seu “movimento”, parecem não conhecer de fato o personagem. Por “conhecer”, leia-se entender de fato o que ele pregava – sugiro, mais do que ver o filme (que nem é de todo ruim, embora esteja bem longe da profundidade do texto original), ler a HQ original de Moore. Porque aí vai ficar claro que a escolha é mais do que equivocada – e, acreditem, quem está dizendo isso é um fã de carteirinha não apenas de Moore, mas também de V de Vingança.
Vamos começar pelo simples fato de que, originalmente, V não era um herói, um cavaleiro salvador combatendo o mal. Longe disso. Estamos falando de alguém com muitos tons de cinza, uma vítima de experimentações governamentais desta Inglaterra futurista e ditatorial, com toques do Grande Irmão de George Orwell. Usado e abusado, este homem tece um intrincado plano de vingança (entenda, portanto, que o título da obra não está ali por acaso), batizando a si mesmo com o número da cela na qual ficou preso (o V não é a letra latina, mas sim o número cinco em algarismos romanos). E o que é pior: usando a imagem de um terrorista como Fawkes para causar medo nos corações dos políticos. Sim, porque, na essência, Fawkes era um terrorista, alguém que queria destruir um símbolo do poder estabelecido sem se preocupar com a enorme quantidade de inocentes que seriam feridos no processo. Alguém aí se lembra de 11 de setembro? Alô?
Achou a comparação com o ataque às Torres Gêmeas forçada? Vejam só: os objetivos de Fawkes eram, pelo menos em teoria, religiosos, para derrubar a supremacia protestante e instaurar um governo de maioria católica.
Bingo.
Como na maioria das obras de Moore, V é um personagem incrível, absolutamente humano e perturbador. Mas fazer dele um herói, um símbolo de revolução? Seria mais ou menos como colocar uma máscara de Bin Laden e sair pela Avenida Paulista com cartazes de “fora, Sarney”. Bush era um escroto? Claro que era. Mas Bin Laden era tão escroto quanto. Assim como também acho o Obama um escroto, embora de natureza diferente. Não temos um herói ou um vilão nesta história, o bonzinho e o malvadinho. Quem dera a vida fosse assim tão fácil de categorizar.
Acredito que o próprio Alan Moore, anarquista convicto, deve achar a idéia de posicionar V desta maneira risível. Fazendo um paralelo com outra grande obra do escritor barbudo, colocar a imagem de V como a de símbolo da luta contra o mal, contra o sistema, é praticamente o mesmo que entender o Ozymandias como sendo o vilão de Watchmen.
O filme de Zack Snyder pode ter cometido esta imensa cagada. Mas não é o que acontece na HQ. Ozymandias é um homem louco, com um ideal, que vai fazer o que for preciso – incluindo passar por cima de quem precisar – para atingí-lo. Mas ele está longe de ser “mau”. Na verdade, o seu objetivo final é bastante filantrópico. Em um dado momento, Moore conseguiu torcer a história de tal forma que eu mesmo, no papel de leitor, me senti pensando “caraca, mas será que o Ozymandias não estava certo?”. Não, não estava. Mas isso faz parte de ser humano. Visão distorcida para um objetivo “puro”. A obra e conseqüentemente os personagens de Alan Moore são muito mais cheios de sutilezas do que este pensamento dicotômico leva a crer. Pense nisso.

Creio que o grande problema são estas pessoas transformando estes movimentos em religiões, travestidos de “o grande bem lutando contra o grande mal” – e ainda usando como símbolo um personagem cuja principal motivação era a vingança, um sentimento essencialmente humano, mas nem um pouco altruísta. Sou plenamente a favor de que as pessoas tirem a bunda da cadeira e se revoltem com a situação estabelecida, que lutem por seus direitos, que queiram mudar o mundo. E isso cada um faz de um jeito particular. Existem diversas revoluções silenciosas e às vezes muito mais eficazes. Fazer protesto na Avenida Paulista e não mudar determinadas atitudes no nosso dia a dia não adianta de nada. A questão é rigorosamente esta. Se vamos usar uma máscara, que saibamos exatamente o que ela quer dizer.
Espero, sinceramente, que exista chance da coisa toda seguir em frente. Mas a minha crítica é justamente às milhares de pessoas “indo na onda”, dando mais valor à máscara do que ao ideal – se é que ele existe para eles. O que me irrita são as pessoas que acham que uma revolução se faz apenas de frases de efeito, bandeiras e marchas de cara pintada (alguém lembra deles?). Estas pessoas que, ao chegar em casa, tiram a máscara do V e tratam o porteiro como lixo, cospem no morador de rua, não demonstram qualquer respeito pelos mais velhos. Ser revolucionário é muito fácil quando você tem obrigação de sê-lo apenas da porta da rua para fora. Eu ainda acredito firmemente que a revolução começa dentro de cada um de nós. É impossível exigir o fim da corrupção se eu continuo querendo levar vantagem em tudo com o meu jeitinho brasileiro, se eu compro produtos piratas (sem me preocupar com a quantidade de gente como eu que eu prejudico), se roubo o sinal da TV a cabo, se eu sumo com o jornal do meu vizinho, se engano o atendente da padaria para poder pagar menos na conta. E a gente sabe BEM o quanto isso acontece.
É impossível tentar mudar o mundo se eu me recuso a mudar o MEU próprio mundo. A revolução tem que vir de dentro para fora. E esta, vejam só, é uma das principais mensagens de “V de Vingança”. Está lá, bem na nossa cara. Basta ler com atenção, por baixo de todas as alegorias, das máscaras, adagas, sobretudos e chapéus.
Quer fazer revolução? Que faça. Eu acho ÓTIMO. Mas faça com consciência, pelamordezeuseodin.
Texto originalmente publicado no Observatório Nerd, um “blog que fala sobre cultura pop. Quadrinhos, cinema, música, séries de TV, desenhos animados, uma pitadinha de games e RPGs, um tantinho de tecnologia e universo geek”. Observatório Nerd é edidato pelo agora NOSSO Thiago Cardim.
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